Os Crimes do Padre Amaro

fragmentos da vida de um monge ateu

mail do padre
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domingo, agosto 31, 2003
 
Crónicas Matinais
As Crónicas Matinais são um jardim que gosto de visitar regularmente.Gosto da simplicidade e frontalidade do que por lá se lê. Nota-se que é escrito de coração. Ao contrário de alguns textos da polis bloguística, que são bastante pensados, estruturados, maturados, aturados, e ao fim de tantos 'ados' acabam num resultado frio, distante, do qual não se descobre pulso, emoção, sangue a latejar nas veias. São poucos os que conseguem ao mesmo tempo manter essa física alquimia dentro de uma prosa cuidada. Talvez o Francisco José Viegas, mas que joga no campo dos profissionais deste santo ofício e que por isso é descontado para este campeonato.
As Crónicas Matinais conseguem agarrar na leitura porque falam sobre aspectos que dizem respeito a todos, mesmo que aquela história aparentemente não nos diga respeito algum. Porque fala naquelas 'coisas da pele'. Se há gente que procura nas blogas uma fuga a essa corrida de fundo diária, a verdade é que alhearmo-nos dela é deixarmo-nos engolir pelo estardalhaço da uma existência incompleta.
Um aspecto que não me agrada tanto nas Crónicas é a (alguma) lentidão ao aceder à bloga. Talvez porque contém algumas imagens, talvez porque o fundo também leve o seu tempo a carregar, talvez porque o equipamento e a ligação que o episcopado forneceu aqui à paróquia funciona segundo os preceitos da Igreja Católica Apostólica Romana, ou seja, com 30 ou mais anos de atraso.
Esta é, aliás, uma das características que me atraem menos nas blogas, a tendência para que cada vez mais sejam transformadas em páginas pessoais abrangentes, e deixem de ser simples repositórios de reflexões, desabafos, simples diários pessoais. A palavra a reter aqui é 'simples', porque é esta que dimensiona o fenómeno da bloguicidade. Fuga ao supérfluo.
Desagradam-me aquelas blogas que à entrada nos convidam a ouvir uma
música para acompanhar a leitura. Nesta matéria sou um conservador militante. Acho que as blogas deviam cingir-se à simplicidade de um conjunto de texto, com um template mais ou menos apelativo, talvez uma lista de ligações privilegiadas, no fundo, todo o conjunto que constitui neste campo a nossa impressão digital.
A internet começou a perder precisamente quando se demitiu da sua dimensão textual e de conteúdo e começou a viver demasiado da imagem e do dimensão visual. É por isso que me confesso um adepto do teletexto (apesar de muito mal aproveitado, e apesar de ter, ao nível técnico, um funcionamento muito pouco user friendly). Assim aconteceu com os jornais, que no princípio viviam apenas do texto, assim sucedeu com a www, e assim irá suceder com as blogas, porque, já diz o adágio (do qual me permito discordar) "uma imagem vale mais que mil palavras". Mil boas palavras podem transmitir aquilo que uma imagem jamais conseguirá...


sexta-feira, agosto 29, 2003
 
O pio de Paulo Portas
Estive a observar parte da entrevista que o Ministro da Defesa Paulo Portas concedeu ao Ricardo Costa da SIC Notícias. Aquela entrevista cheia de dinamismo em que entrevistador e entrevistado caminham pelos mais variados locais e temas ao sabor do vento e da conversa. Confesso que não ouvi nada do que o ministro disse. Quando Paulo Portas surge na televisão tenho por hábito tirar o volume ao som do televisor. É um hábito que vem de longe. Do tempo em que ainda não sonhavamos sequer em Paulo Portas como um governante da nação. Tiro-lhe o som porque já sei o que é que o ministro vai dizer, de tantas vezes que o ouvi repetir: "vamos aumentar as reformas, vamos dar melhores condições aos pescadores, vamos lutar pelos direitos dos agricultores." Há que dizê-lo, este é um discurso gasto para alguém que agora é Ministro da Defesa, e eu prefiro não o ouvir.
(Uma constatação interessante: reparei que o gabinete do ministro fica virado para o Estádio do Restelo e as janelas não têm vidro duplo.)


 
O pesado silêncio das minhas noites
Está uma noite estrelada. Estou a ver se encontro Marte, sinto-me um americano a olhar para o resto do mundo, de nariz para o ar. Alguém sabe se já desligaram aquilo? Há coisas que me irritam nestas noites. O sistema de rega da câmara começa a funcionar a partir das cinco da manhã há tantos meses e o que cresce é apenas um conjunto de ervas daninhas e outros parasitas vegetais. Tipos em motas passam a acelerar na via rápida uns atrás dos outros conseguindo chegar a níveis de ruído quase tão altos como os de José Carlos Malato e a Júlia Pinheiro juntos. Outros passam de avião aqui por cima realizando barulho propositadamente só como intuito de acordar as populações indefesas (como se sabe, não é concedida em Portugal a licença de uso e porte de lança-mísseis). Pergunto-me se não seria possível obrigar estes indivíduos que conduzem os aviões (são piores do que os taxistas, alguns) a desligar os motores quando sobrevoam cidades populosas como esta. Acredito que um avião em voo rasante por entre uma zona populacional seria um método eficaz, e barato, de acordar milhares de pessoas que têm de se levantar cedo para ir trabalhar. E um avião de motor desligado a sobrevoar uma cidade seria um método eficazíssimo de as adormecer. A economia do país talvez ficasse a ganhar, se o Governo equacionasse adoptar este designado método do despertador colectivo. Mas não acredito que fosse essa a intenção do pássaro ruidoso que acabou de roçar com a sua barriga metálica aqui sobre o pára-raios do campanário desta igreja. Esse deve ter-se esquecido de olhar para o relógio.


quinta-feira, agosto 28, 2003
 
O fabuloso plágio de Amélia
A Amélia da Laca anuncia que vai publicar já no mês de Setembro um livrinho de sonetos inéditos intitulado ‘Os Queridos’. Bom, depois de Cláudio Ramos publicar um romance ‘Em nome de todos os homens’, já nada me espanta e qualquer coisa passa por ser aceitável. Ao que tudo indica, o livro da dulcineica Amélia será publicado pela D.Quixote e obrigará ao adiamento da publicação pela mesma editora do novo romance de Lobo Antunes (seria, de facto, um erro estratégico, lançar dois sucessos editoriais no mesmo espaço de tempo).

Enquanto não podemos embelezar as nossas casas de banho com exemplares de ‘Os Queridos’, a autora foi adiantando em rigoroso exclusivo na sua bloga um dos sonetos que tomarão parte nessa epopeia poética.

Sem bigode

Aquele, que eu adoro, será feito
Com as faces de Francisco purpurinas,
De José as formas lânguidas, divinas,
De Nelson o tronco fino e estreito...

Não será Rolo, de ideias feitas
Enrolando coisas pequeninas,
Nem linfático Pedro e suas rimas,
Nem piadinhas d' Amaro satisfeitas...

A mim mesma pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...

É ainda uma miragem, ainda um blogue,
Ideal, que nasceu na solidão,
Um marido querido sem bigode...

Amélia


O primeiro pensamento que tive depois da minha leitura foi: ora cá está, aquilo que eu já desconfiava, isto é um soneto. Duas quadras e dois tercetos, não engana ninguém, a autora domina a coisa como quem se amanha com os efeitos do calcário na máquina de lavar louça. O segundo pensamento já foi mais clarividente: não, isto não é um soneto, isto é um soneto de Antero de Quental, santíssimo sacramento!
Poderá o leitor ficar a pensar, mas o que tem o Antero a ver com o soneto ‘Sem bigode’ da nossa Amélia, por Deus? Para quem não sabe, aqui se denuncia. ‘Sem bigode’ é um plágio desavergonhado do soneto ‘Ideal’ do poeta Antero, que, coitado, não teve culpa nenhuma que esta coisa das blogas de repente tomasse proporções tais. Mas porquê um plágio de Antero de Quental e não um plágio de Rui Reininho, por exemplo, perguntará o leitor bruto. Porque Antero era um dos símbolos maiores da Geração de 70. Se repararmos no penteado com que Amélia se apresenta, compreendemos imediatamente que há ali uns toques da geração de 70.

Para os mais incrédulos, segue o original, e teça o leitor as suas considerações.

Ideal

Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas
Não tem as formas lânguidas, divinas,
Da antiga Vénus de cintura estreita...

Não é Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...

É como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...

Antero de Quental


O ‘Ideal’ remete para a busca do amor idealizado, espiritual, platónico. Não é isto que Amélia procura. Até porque Amélia não pode procurar algo que não existe. Até porque Amélia não pode procurar nada, mesmo que esse nada exista, se, ela própria, não existe. Isto deve estar a tornar-se complicado de perceber para o básico leitor que pensa no casamento apenas como uma oportunidade única de arranjar sexo fora do casamento. O casamento não sei o que é, para lhe poder explicar, caro leitor. Por isso não posso saber o que é o sexo fora dele estando-se dentro dele. Quanto ao ideal, julgo que é algo que a nossa ‘querida’ Amélia já devia saber que não existe, como devia saber que a generosidade quando se tem uma mentalidade pueril é ficar preparada para se contentar com um homem de bigode farfalhudo (servirá de escova para polimento à placa de D.Amélia), um homem de proeminente unhaca no dedo mindinho (que serve também de antena, não só para catar as emissões da Bancada Central na TSF, mas sobretudo para catar a proximidade de belos espécimes mulheris em idade reprodutora – este homem anseia acto de reprodução a qualquer momento e em grande escala). À falta de pretendentes com as qualidades atrás enumeradas, o conceito de ‘ideal’ remeterá porventura para um massajador facial à venda por 15 euros no catálogo da La Redoute, empresa da qual, tenho a certeza absoluta, a distinta Amélia é cliente habitual.

A grande 'piadinha' é que Amélia resolveu plagiar um poeta que tem dos bigodes mais farfalhudos que a cultura portuguesa já terá conhecido. Não será isto um pouquinho contraditório? Bravo!


quarta-feira, agosto 27, 2003
 
Insónia
É sempre assim, julgo, há sempre um momento em que o olhar cativa e a cabeça se perde, estamos a falar das imprecisões da razão, essa que se estende ao amanhecer numa praia longe dali, recordando como foi bom o amor que deixámos por fazer. Penso em ti.


terça-feira, agosto 26, 2003
 
Em causa a mediocridade do texto
Há uma expressão recorrente do universo jornalístico português que julgo deve a todo o custo ser banida das redacções. A expressão em causa é ‘em causa’ e, se reparardes bem, não há segmento informativo – radiofónico, televisivo ou de imprensa – em que não nos sintamos sob a ameaça de um qualquer ‘em causa’ que venha por lá disparado. Em causa estão a variedade e a diversidade desta sempiterna língua de que fomos dotados. Ela é demasiado rica para que nos deixemos algemar a estas, ou a outras tão indesejáveis quanto esta, bandoletes linguísticas. Comprometamo-nos desde já a abolir esse vício.
Regra número 1 para o bom jornalista: jamais em oportunidade alguma, por mais convidativa que lhe pareça, fazer uso da expressão ‘em causa’.


 
Durão Barroso no mercado da publicidade
Saberá alguém no Blog de Publicidade esclarecer-me sobre quanto é que o actor Durão Barroso cobrou para fazer de agente da PSP na campanha televisiva da Vodafone? Ando a precisar de o contratar aqui para o papel de líder da oposição. Acho que se safa melhor!


segunda-feira, agosto 25, 2003
 
Scolari tem um sósia
Depois do último jogo que Portugal fez contra o Cazaquistão, acho que chegou a altura da Federação Portuguesa de Futebol mandar embora o Gene Hackman e contratar de uma vez por todas o Luiz Felipe Scolari.


 
Vítor Baía na Selecção, já!
Já tinha algumas saudades de ver o Vítor Baía levar uma chapelada. Aconteceu ontem, no jogo contra o Estrela da Amadora. O guarda-redes titular do Futebol Clube do Porto, julgando tratar-se aquele de um jogo de solidariedade em favor da nobre causa de auxílio às vítimas dos incêndios, tratou de mostrar que a solidariedade é uma das suas maiores virtudes. Ao repor uma bola em jogo, colocou-a exactamente nos pés de um adversário, que agradeceu e perguntou ao guarda-redes: “queres por cima ou queres por baixo?” ao que o guardião portista terá respondido: “isto é para mostrar às pessoas que não têm respeitado o Vítor Baía ao longo da sua carreira, que esse esbelto guarda-redes continua em grande forma, reparem só neste gesto técnico...” (e de seguida Vítor Baía fez as delícias dos fotógrafos, lançando-se sobre a mesa da conferência de imprensa, demonstrando que a jogar para a fotografia não há pai para ele!) Ouvindo estas palavras, Julio César, o atacante imperial do Estrela da Amadora presenteado pelo erro do guardião portista, não se fez rogado e, de uns distantes 25 metros, levantou uma chapelada sobre um Vítor Baía que, de olhos aturdidos no ar, acudia para a baliza enquanto o esférico se agasalhava já no fundo das redes.
Os detractores deste keeper estarão por esta altura a dar razão ao seleccionador Scolari, por este, no último jogo da Selecção Portuguesa, ter preterido o arrojado Vítor Baía em detrimento de um terceiro guarda-redes do FC Porto que ninguém conhece. Eu discordo do seleccionador Scolari e dos caluniadores da carreira de Vítor Baía. Baía mostrou neste jogo que continua a ser o grande guarda-redes que sempre foi. Vítor Baía é ainda, actualmente, o guarda-redes que mais estilo demonstra a sofrer golos. E isso é bom, ajuda a manter os níveis de moral da equipa. Com Vítor Baía na baliza até os adeptos do Futebol Clube do Porto mostram o seu pasmo por sofrerem um golo (pasmo traduzido em palavras intraduzíveis, por constituírem um dialecto próprio das gentes das Antas, no qual não estamos versados), porque sofrem-no com estilo, com classe.
Mas a vantagem de Vítor Baía num grupo de trabalho ultrapassa a de qualquer outro guarda-redes. Um cenário hipotético: imaginemos que o motorista do autocarro de Portugal resolve embebedar-se depois da derrota de Portugal na final do Euro2004 (um golo sofrido por Vítor Baía, mas com enorme estilo, do mal o menos) e que em desespero, o motorista, atacado por uma crise de personalidade, resolve atirar a chave do autocarro ao rio. É nestas alturas que se percebe porque é que Vítor Baía deve ter lugar cativo nas convocatórias de qualquer treinador. É que não há nada como pedir ao Vítor Baía que empreste os arames que tem no joelho para fazer a ligação directa.
Por todas estas razões e muitas mais, acho que agora sim, Vítor Baía voltou aos seus melhores dias, agora sim, tem lugar na Selecção Portuguesa.


 
Soneto ao Varandas
Renascer é ouvir-te ronronar
Nestas noites em que findas no meu peito
É esse teu jeito tão felino de poisar
Um teu cagalhão eriçado no meu leito

Deste telhado, sabes, passo a vida a viandar
Do lusco-fusco ao clamor da lua cheia
E tu, gato incansável de largar
Em cama minha tal imunda diarreia

E por quem sois, vós, os do riso pardacento
Que me indagais: a que cheiro é que tresandas
Deveis ser, farejo, p'lo gato fedorento
Pois vosso eflúvio imita o meu Gato Varandas

Renascer é ouvir-te ressonar
Nestas noites ao ronronar intestinento.

Padre Amaro


quinta-feira, agosto 21, 2003
 
A bola que ficou quadrada
O facto mais surpreendente da semana é que a selecção portuguesa de futebol de sub-17 conseguiu demonstrar ao mundo como é possível estar a vencer um jogo já na segunda parte por 5-0 e poucos minutos depois terminá-lo empatado a 5 bolas. Isto é Portugal no seu melhor.


 
Gato Fedorento atropela o Padre Amaro II
Uma das questões que mantém aceso o debate no canal Canção Nova (canal 40 da TV Cabo) gira em torno da bloga Gato Fedorento. A última edição do programa do Padre Borga levantou a lebre: será que a designação do gato advém do cheiro pestilento com que inunda a casa aos seus quatro donos? Mas sendo os seus donos gente asseada (tirando o Fanã, que não se assumiu ainda como tal) não seria de esperar que o gato andasse limpo, com um pêlo sedoso a lembrar os odores da nespereira? Muita gente se tem questionado das razões para este gato ter tal designação. O nosso correio tem-se visto nas últimas semanas inundado por questões do género: “mas afinal foste tu que te esqueceste de dar banho àquele tareco imundo?” ou “Ó gato, tu vai sentar-te ali na sanita que isto assim não se pode...”
Em resposta a todas as pessoas que se têm mostrado inquietadas com este mistério, aqui fica uma explicação que creio suficientemente elucidativa:

Assina, passa e revolta-te!!!
Uma sítio da internet que fora encerrado há cerca de um ano está de volta.
Nós temos de conseguir encerra-lo definitivamente!
Um japonês em Nova Iorque tenta "produzir" e vender gatos a que chama “BONSAI CATS".
Para o conseguir encerra gatos de tenra idade em frascos onde viverão toda a vida fechados em permanente tortura recebendo comida por um tubo e vertendo a urina e fezes por outro.
O gato acaba por adquirir a forma do frasco e será usado como objecto de decoração original e exclusivo.

Ass: Comissão Instaladora da Associação Portuguesa dos Vendedores a Retalho de Coelhos e Lebres


Isto deixa-me em cuidados. Julgamos que além do gato fedorento (original e exclusivo) e do gato Varandas (objecto de decoração em forma de frasco), o fenómeno do gato bonsai devia ser mais difundido em Portugal. Há poucos.


 
Gato Fedorento atropela o Padre Amaro
São algumas dezenas as mensagens que chegam todos os dias de todo o mundo ateu pelo nosso email oscrimesdopadreamaro@hotmail.com com o intuito de insultar as nossas mães, a dimensão do nosso órgão genital, sugerindo que adoptemos preferências sexuais alternativas, convidando-nos para jantar, suplicando-nos que escrevamos um livro sobre a nossa vida de seminário intitulado “Xanatas de Prata” ou, em tratando-se de indivíduos de capacidade intelectual duvidosa cujo único intuito é o do simples achincalhamento, elogiando-nos. A bem da verdade, o único elogio que até hoje nos chegou era de um estropiado da guerra colonial, referindo-nos o quão agradado estava com a nossa postura, embora se mostrasse ao mesmo tempo preocupado com as nossas perninhas, porque, dizia o nosso amigo estropiado, "sempre que vos vejo só são mostrados da cintura para cima". O elogio vinha infelizmente extraviado. Dirigia-se sim ao rezingão e entroncado Blogue dos Marretas, para o qual encaminhámos desde logo a referida mensagem.

No dia de ontem, porém, chegou-nos uma missiva que não se inclui em nenhuma das categorias apresentadas, por aquilo que tem de inusitado. O insensato Ricardo de Araújo Pereira (RDAP) interpelou-nos no sentido de saber que história é essa de barrarmos as hóstias com Planta, além de lhe interessar saber em que paróquia é que damos missa...

Meu caro Padre Amaro,
Só hoje li a sua intrigante epístola do dia 5 de Agosto, intitulada "Rir é o pior remédio!" Digo intrigante porque, se por um lado parece conhecer-me ("ostentando no seu quarto uma boina à la Guevara e uma bandeira de Cuba"), por outro fico com a sensação de que nunca me viu ("O seu tempo de comédia é o perfeito, o texto é minuciosamente preparado e a actuação sempre surpreendente"). Posto isto, rogo-lhe que se revele para que eu possa convidá-lo para meu agente: o meu amigo diz coisas mais elogiosas sobre aquilo que faço do que a minha progenitora.
Aguardando a revelação, cumprimenta-o
Ricardo


O meu agente aconselhou-me a que me reservasse no direito de não comentar a missiva de Ricardo de Araújo Pereira (RDAP), por achar que o uso da palavra seria irrelevante e passível de prejudicar as negociações. Foi o que fiz. E deleguei no meu agente a resposta ao colega Ricardo de Araújo Pereira.

Meu caro Ricardo de Araújo Pereira,
foi com bastante agrado que o Padre Amaro me transmitiu as suas palavras e me indagou dos passos a seguir, ele que se reserva no direito de não comentar a sua missiva, por achar que o uso da palavra é irrelevante e passível de prejudicar as negociações.
Sou eu quem faz o agenciamento do Padre Amaro, e serve esta para lhe dizer, caro amigo Pereira, que caso deseje contar com os préstimos do nosso abatinado para seu agente na próxima época a transacção se pode efectuar de imediato, por três anos e mais um de opção. O Padre Amaro assumirá dessa forma o agenciamento da sua carreira, e eu continuarei ser o agente do Padre Amaro e, por inerência, seu agente também. É meu entendimento que ambas as partes ficam a ganhar com esta troca de queijadinhas de sintra.
Se preferir contratá-lo apenas a ele, fique pois sabendo o caro amigo Pereira que nada tenho a opor. É um jovem promissor e que tem muito para dar ao mundo da bloga. Uma mão esquerda fantástica, fruto de anos de prática de fronte de um espelho, e de uma preparação porfiada nas camadas mais jovens do melhor bloguismo nacional. O Padre Amaro está disponível num belo conjunto Armani, em versão 1/12 ou 1/6, por troca com alguns dos seus acólitos, propondo eu para o efeito a permuta pelo conjunto Miguel Góis + Zé Diogo Quintela, ou em alternativa Miguel Góis + Zé Diogo Quintela + Fanã, sendo que neste caso poderíamos oferecer-lhe totalmente grátis o Cláudio Ramos (que também é agenciado por nós) e, caso fosse do seu agrado, levaria também no pacote o Pedro Miguel Ramos, um profissional, deixe-me dizer-lhe, de elevado calibre.
Quanto à bandeira de Cuba e à boina, foi apenas um palpite. É um estereotipo dos guionistas do esquerdalho. E você não engana ninguém.
Um abraço revolucionário,
(assinatura ilegível)


terça-feira, agosto 19, 2003
 
Rei dos Nitrofuranos referencia 'Os Crimes do Padre Amaro'
Foi com desmesurado regozijo que recebemos aqui no templo a notícia de que 'Os Crimes do Padre Amaro' havia sido referenciada na descomprometida bloga Pintainho. Sem desejar menorizar a importância de todas as outras referências à nossa bloga (elogiosas, insultuosas ou assim-assim), esta terá sido com toda a sinceridade aquela que mais nos satisfez, tendo em conta a importância de que se vai revestindo o Pintainho na cultura bloguística nacional, exemplo para tantos candidatos ao fulgor intelectual dos reis da bloga, sempre vigoroso nas suas visões sobre a realidade, não se coibindo de apresentar filosóficas soluções para os problemas com que se debate a capoeira (gaiola?), nem se deixando abalar por esse pequeno problema de linguagem, que de todo impede a compreensão dos ideais que nos tenta fazer chegar. Desejamos ao Pintainho e à sua família as maiores felicidades e fazemos votos para que consiga durar pelo menos até ao Natal. A visita ao Pintainho é obrigatória!


segunda-feira, agosto 18, 2003
 
Exercícios de estilo
Raymond Queneau escreve a obra Exercícios de Estilo da qual se serve para deambular por diversíssimas variações literárias em torno de um mesmo tema. A propósito de um episódio perfeitamente banal e desinteressante – o encontro fortuito entre duas pessoas num autocarro parisiense – o autor demonstra como é possível narrá-lo de 99 maneiras diferentes, moldando o estilo a fórmulas tão desiguais como o tendencioso, olfactivo, telegráfico, lado subjectivo, lipograma, comédia, eu cá, empolado, helenismos, probabilista, língua dos pês, etc., etc., etc. A tradução, pouco mais de 3 anos e única ao fim dos mais de 50 anos da publicação do original em francês, encontra-se disponível no catálogo Colecção Voz de Babel pelas Edições Colibri. (Tomara conhecimento anos antes da existência do Exercices de Style através de um amigo, a tradução foi-me dada a conhecer pela minha amiga S., a quem desde já agradeço o ter-mo oferecido num destes natais mais recentes.)
Vem esta nota a propósito do que se lê por aqui, no impreciso mundo das blogas. Há blogas que não dizem nada, há blogas que dizem tudo, e há blogas que dizem sempre a mesma coisa. Deste vagabundear através de algumas das blogas mais em voga e respectivos clones, precipito-me para o reconhecimento da redundância que algumas delas fazem de si próprias e das fórmulas que ingerem de outras. Tendo a ficar com a ideia de que estou a ler os Exercícios de Estilo de Queneau quando faço um improviso de leitura de algumas blogas (o autor não arrolou qualquer variação bloga, se houvesse escrito o texto nos dias de hoje era capaz de não descuidar). As blogas bebem muito da imaginação de Queneau, mesmo que a desconheçam, a redundância é camuflada pela vontade de marcar presença ou pelo bastante volátil estado de espírito de cada manhã. O texto de Queneau é, acima de tudo, uma demonstração dos recursos e potencialidades da língua, tal como o exercício diário de escrita nas blogas também demonstra sê-lo. É que há blogas que demonstram como é possível dizer impiedosamente a mesma coisa todos os dias, de 99 maneiras diferentes. Experimentem procurar!


domingo, agosto 17, 2003
 
Sugestão de viagem: Água-Todo-o-Ano
É um percurso que aconselho, apesar de ficar numa zona que foi este ano fustigada pelos incêndios. Mas como sabemos que o sádico leitor desta bloga quer é apreciar desgraças alheias, a nossa sugestão aponta para esse Portugal à beira da desertificação social e paisagística, local onde incendiários e bombeiros estão em maior número do que a população comum. Façamo-nos ao caminho: se partir de Lisboa, sustenha a respiração por causa das limalhas de sobreiro e siga o percurso do Rio Tejo até Abrantes. Encaminhe-se depois na direcção de Ponte de Sor, onde já sentirá respirar-se o ar quente e seco trazido pelos famigerados ventos de Leste. Contemple a mortificação do solo e mortifique-se também um bocadinho por não ter estado aqui antes. De Abrantes poderá seguir até Ponte de Sor através de uma estradinha directa desde o Rossio ao Sul do Tejo; mas o conselho, caro leitor saltitante, é para que perca em quilómetros aquilo que ganhará em conforto, paisagem (?) e no custo do arranjo da suspensão do carro. Prossiga então para Leste, quer seja pela nacional antiga ou pela recente autoestrada, agigantando-se na direcção da graciosa e agora pardacenta Belver (Procissão das Santas Relíquias no 3º Domingo de Agosto. Não deixe de visitar o seu castelo altaneiro). De Belver atravesse a ponte sobre o rio Tejo e pare só quando chegar ao Gavião. O Gavião é uma localidade exemplar para se beber uma água e nos perguntarmos onde está toda a gente! É uma questão que eu sempre levanto quando chego a qualquer localidade do Alentejo às 3 horas da tarde. Ponte de Sor fica a cerca de 25 quilómetros do Gavião, 25 quilómetros de uma estrada nacional nº2 dura e cheia de emoção. As rectas são longas mas não se preocupe, não avistámos qualquer elemento da GNR escondido entre os chaparros. Ao chegar a Ponte de Sor, deleite-se com a exorbitante falta de interesse turístico desta cidade (se houver leitores desta bloga que sejam de Ponte de Sor, ficarei grato por me enviarem brochuras, guias turísticos, referências de viagem, obrigado!) Tantos quilómetros para nada, pensará o pouco informado leitor. Não, para nada, não. O grande destino desta jornada está ainda para vir. Seguindo a estrada para sul na direcção da Barragem de Montargil, poucos quilómetros depois de sair de Ponte de Sor, dará de caras com a localidade de Água-Todo-o-Ano. Vale a pena visitar. O interesse da localidade, para além de uma toponímia a toda a dimensão invulgar, é que tem água todo o ano. É um chamariz turístico. Se ainda tiver tempo, e se estiver em condições de conduzir depois de toda a água que consumiu, viaje até à aprazível Barragem de Montargil, não sabemos se tem água todo o ano, mas, a ter, a água será do pouco ainda por arder no distrito de Portalegre. Conheça o Portugal profundo antes que ele desapareça. Vai ver que ficará orgulhoso do seu país e das suas gentes.


sexta-feira, agosto 15, 2003
 
Bigodes: última hora
Artur Jorge cortou o bigode. Um dos ícones, uma das referências culturais deste país, parte da História que ajudou a compor a alma lusitana desapareceu. Artur Jorge surgiu hoje publicamente, sem bigode. Definitivamente, Portugal já não é o que conhecemos. Como podemos ter alegria em viver num país como este?


 
RTP: os anos do látex
“A estrutura do edifício da RTP na Avenida 5 de Outubro está intacta”, garante o engenheiro de estruturas do LNEC, após cuidada vistoria aos pontos mais sensíveis da obra. “Todas as condições de segurança estão garantidas”, assegurou com um sorriso brejeiro o mesmo técnico.
A questão da segurança das fundações do edifício foi levantada depois da rede de condutas ter sido afectada por um entupimento geral. Causa: LÁTEX. Esse mesmo. Não tiremos conclusões precipitadas, não sejamos perversos. Eu não estou a ser. Estou só a publicar este aposto numa mera função informativa. Não quero cá na minha bloga leitoras e leitores mal informados sobre estas lindas realidades que nos rodeiam.
Apesar das dificuldades no pagamento dos salários, apesar do estado de preocupação continuada em que os trabalhadores da RTP vivem, regozijemo-nos: há entusiasmo entre os funcionários da estação. A tão propalada “alegria no trabalho” de outros tempos parece manter-se como uma das bandeiras das televisão pública. Alegra-me constatar que aquilo que é bom jamais se perde: a já referida alegria no trabalho, a providencial prateleira para os mais atreitos a esse repouso, o saneamento para casos mais complicados, e o modelar zero no festival da Eurovisão.
No caso em análise estamos perante questões de saneamento. Básico. Quinze anos de látex mandados pela sanita abaixo. Quinze anos de látex, que agora resultam num entupimento geral. Quinze anos de látex a trazerem agora uma nova luz sobre a intensa actividade aparentemente sísmica da Avenida 5 de Outubro. Quinze anos de látex, e nós a pagar para pôr aquela gente trabalhar. É que ainda por cima tiveram o desplante de usar preservativo. Ao menos se contribuíssem para este país fazendo por aumentar a taxa de natalidade.

(Não consegui informar-me em tempo útil sobre todo este estranho material metido pelas sanitas abaixo, mas não me constou que as fitas das cassetes de video usadas na RTP sejam feitas em látex. )


 
Prémio “É o Schumacher a esgalhar nas curvas e eu spidar aos microfones”
Vai para Fernando Alves, da TSF. O homem que consegue falar mais depressa do que o próprio eco. Contrariando tudo quanto é preceituado pelas melhores escolas de rádio, o senhor consegue ultrapassar todos os limites, os de velocidade, e os de imparcialidade.
Apraz-me dizer, encaixando neste contexto uma máxima recorrente do universo futebolístico: “o jornalismo é isto mesmo, e se não for isto é uma coisa completamente diferente” (por Zé Manel Taxista). O jornalismo é isto mesmo, um conjunto de fórmulas que foram instituídas precisamente para serem contrariadas. Objectividade, isenção, imparcialidade, clareza, concisão. Estas apenas existem para encher manuais, para justificar a existência de sindicatos, conselhos deontológicos, para legitimar uma moribunda AACS, enquanto existiu. A isenção, imparcialidade, procura da objectividade são conceitos atirados às malvas logo que se abrem os microfones, logo que se tem à frente o teclado do computador, logo que a luz da câmara se acende.
Não é de um dia para o outro que vamos enterrar vícios de trinta anos de democracia. Se jornalistas se servem dos seus meios para fazer política, porque razão não hão-de os políticos servir-se da sua actividade para fazer jornalismo. Ocorre-me chamar a isto promiscuidade, mas detenho-me quando reparo que militares não estão autorizados a fazer política e que das maiores dores de cabeça dos políticos portugueses tem sido precisamente por conta de posições tomadas pela instituição militar. Ah, na proibição aos militares de fazer política talvez se entendam aqui os de baixa patente, sargentos, praças, os tais que mais motivos terão para reclamar pelos baixos salários, pela parca qualidade das condições laborais, pelo atroz impedimento de se manifestarem publicamente, pelo cercear da liberdade individual, dentro e fora dos quartéis. Talvez a regra se aplique apenas a esses, não aos outros, que vão à televisão debitar comentário sobre geopolítica ou estratégia de artilharia.
Mas, voltando ao jornalismo, dá-me que pensar quando se põe em discussão se a informação da TSF é de esquerda, se é direita, se é a preto-e-branco ou policromática. Não seria suposto não ser nenhuma destas coisas?


quinta-feira, agosto 14, 2003
 
Que culpa tem a culpa no meio disto?
Não podemos deixar a culpa morrer solteira. É um imperativo quase tão forte como arranjar um marido para a Teresa Guilherme das blogas, a incendiada doutora Amelie. Ainda as brasas não aplacaram e já todos nos apressamos em procurar culpados, responsáveis, autores morais e materiais. É assim no nosso país, acusamos pulcra eloquência em juras de fidelidade à causa de inculpar. Procuramos como para uma filha um noivo que encaixe nos estreitos braços da culpa, embora não apreciemos apadrinhar a boda, pode trazer-nos problemas. Aquando da queda da ponte de Entre-os-Rios, toda a classe política e não só se apressaram em fazer ver aos portugueses o imperativo de encontrar culpados e julgá-los, de não permitir que mais uma vez uma tragédia passasse sem uma exortação dos responsáveis. Passados que estão 2 anos sobre o acidente, tudo se calou, tudo deixou andar, a ponte foi construída, o concelho recobrou alento económico, as culpas passaram para segundo plano (os mortos já lá vão, afinal), até que nova ponte volte a tombar no meu país. Valerá a pena desejar que isto não suceda na procura dos incendiários, ou contentará pensarmos que será escusado fazê-lo? É que o mais certo é a culpa perecer abandonada no altar, encafurnada no seu eterno celibato. E que culpa tem da nossa incompetência a pobre culpa?


 
A partidarização do Abrupto
Inquieta-me a crescente partidarização das blogas. É evidente que o Abrupto de Pacheco Pereira, mais do que um manifesto de autor, é um instrumento ao serviço do partido do governo para distrair os portugueses. Repare-se na dimensão ofensiva de alguns textos, no lançamento de discussões estéreis como aquela em que se abordava a eventualidade do ‘umbiguismo’, no incessante apelo para que os portugueses se fixem no céu à procura de Marte. E tem parecido resultar. O universo blogueiro está rendido ao discurso prolixo de JPP e curva-se em vénias sucessivas perante a alma pater das blogas. No outro dia, enquanto o país ardia, dei por mim com o nariz no céu à procura do ponto vermelho insinuado por JPP num dos seus recentes apostos. Pensei se não seria esta uma estratégia para afastar o pensamento dos portugueses do real estado da nação. Pouco depois voltei à realidade. Era mesmo!


 
Escrita automática
O rio cavalgava até ao mar. Havia no céu um prenúncio de que alguma coisa nos observava. Tinha uma tendência bizarra para se deter em pormenores inobserváveis, estes que mais ninguém parecia cuidar mas que para si faziam toda a diferença. Era um deles, um céu que desabava sobre si, que se desfiava em duas sentenças de morte, dois pólos opostos de porção, o tudo o nada, a praia. Não queria saber de mais nada, até porque “nada” era uma imensidão de coisas. “Nada” podiam ser muitas mentiras juntas, muitos equívocos enleados para causar o cataclismo numa vida. Descria no caos. Mas respeitava que ele existisse. Contrariava as pétalas que eram arrancadas das flores à força do desespero. Uma mulher desesperada pode ser capaz das atitudes mais imprevisíveis. As mulheres são, neste campo, muito semelhantes aos animais, pensava. Trata-se de uma espécie de ser primitivo, com um lado demasiado instintivo. Era por causa destes comentários infelizes que conquistava uma aura de machista entre as colegas de trabalho. Mas não se incomodava com os comentários mais deselegantes que sabia circularem nos corredores. Era o que ele pensava, não podia guardá-lo para si.
Aquela gárgula era a sua paixão de final de tarde. A água que dela corria empardecia na laje como um romance de filme mudo. Um blog faz-se de frases fortes. Para saber escrever um blog é preciso saber-se escrever boas frases e fazer com que elas durem, até um momento de exaustão do leitor. Cada leitor permanece indiferente ao que se procura dizer, agastado na sua digressão célere, impaciente ao nível da pior impaciência, capaz de ser o mais fiel dignitário de um relato que nenhum outro leitor entenderá da mesma maneira. Dessa forma, cada leitura constrói o texto de forma diferente. É essa uma das premissas mais interessantes e preocupantes para a natural prepotência do escritor. Que feita a sua obra, esta se veja nas mãos de pessoas que poderão não saber dar conta dela, que a desbastarão à sua maneira, mesmo que essa seja radicalmente oposta àquela que o autor tão afincadamente procurou traduzir em palavras.
Quando as palavras nos faltam na escrita do blog, temos de nos socorrer de imagens. Elas por vezes escondem-se em locais esconsos, onde não podem ser encontradas senão à força de um esforço de cometa. Este ano já me sucedeu duas vezes procurar palavras que não conheço, entrar dentro do espírito delas e sentir-me incapaz de concluir a metamorfose. É mais triste quando nada se tem para dizer, quando os passos se libertam de nós fugindo, tomando a forma de lugares distantes e inócuos, que não se conquistam de forma simples. Na praia entendia-se hoje uma brisa estranha, em harmonia com o cheiro do mar formando uma leve aragem nauseabunda. O ar repulsivo fazia sentir que as palavras se dizimavam umas às outras.
Ao sexto dia já devia ter alguma ideia para o que queria do seu blog. Nem sempre é fácil dar às personagens a autonomia de que elas precisam para se desenvolverem. Faz-se ainda sentir o estima da personagem agrilhoada à vontade do autor, e é com alguma dificuldade que as personagens encarnam o seu novo papel, o de ter de largar as saias do autor, e voar, atirar-se do precipício prontas a voar até ao infinito. Um blog é lugar de infinitos. É lugar de promessas que podem ser cumpridas, de todas as improbabilidades, é por isso que só as pessoas especiais e porventura crentes se cruzam nos blogs. Ao sexto blog resolveu aguardar que os seus instintos o deixassem saltar uma barreira que tinha pela frente. A imaginação faltara-lhe. A intenção era agora procurar-se dentro das palavras que tencionava escrever. Pensou.
Decidira contestar tudo o que havia dito e lido sobre si. Era a sua única defesa, pessoal, e possível. Caminhou pela areia molhada, enlevado pelos sinais do mar num inconstante vai e vem, o mar que sempre o aprisionou a esta terra, agora encarado como uma porta para a liberdade. Evadira-se já mentalmente. Sobrava-lhe o corpo, um remate para uma vida. Entrar pelo mar não é um gesto de cobardia. Encarava-o como mais um gesto de imensa coragem. Considerava-a ao mesmo nível da coragem que tinha tido para viver durante todos estes anos, despertar em cada manhã era um feito, uma luz corajosa para encarar cada novo dia com esperança renascida. Como o mar, que confia à ondulação a capacidade de se renovar. Rebentação.


quarta-feira, agosto 13, 2003
 
Amélia 'mimoseia' Padre Amaro
A Amélia da bloga Procuro Marido é o tipo de mulher que eu detesto mesmo (ou não me chamasse Amaro...)! Sempre com piadinhas, sempre a piscar o olho, aposto que usa pêlos a sair das orelhas e tem bigode! Agora que regressou de férias resolveu meter-se comigo, chamou-me parvo. Simone de Oliveira!


 
A Inquisição nunca existiu
Ao longo dos tempos, muitas pessoas mal intencionadas se têm servido dos relevantes préstimos do Tribunal do Santo Ofício à sociedade civil para tentar denegrir a imagem imaculada dessa instituição benemérita que tem sido a Igreja Católica. A verdade, meus amigos, e isto já está mais do que demonstrado cientificamente (pelos nossos habilitados teólogos), é que a Inquisição nunca existiu. Pelo menos, nos moldes que por aqui se proclama. O que existia era um grupo de incendiários que na altura se entretinha a atear fogos em locais onde, por uma mera fatalidade inexpugnável, se encontravam amarrados alguns indivíduos possuídos por fluidos endemoninhados e torpes, indivíduos esses que, facilmente combustíveis, começavam de um momento para o outro a arder e quando acabavam já estavam mortos. A Inquisição, meus amigos, essa, é simplesmente uma invenção maliciosa do Fernando Rosas.


 
O campeonato da solidariedade
A solidariedade anda a soldo. Cada estação televisiva iniciou a sua campanha de solidariedade e parece agora que o importante é conseguir angariar maior pecúlio de solidariedade do que a sua rival. Mais do que uma tentativa desinteressada de ser solidário para com as vítimas dos incêndios, todas estas campanhas de solidariedade me parecem assemelhar-se a manobras de propaganda das estações televisivas, em tempos de verão, quando a clientela televisiva anda menos atenta e se procura exercer a fidelização do público para a rentrée que se aproxima. A solidariedade interesseira não me interessa. Mais uma vez, este país de mentes ignóbeis fica muito a dever à sobriedade.


 
Estado engole 20% da solidariedade
Renascer das Cinzas é o nome da iniciativa que a RTP e a RDP levam a cabo por estes dias, num indecoroso apelo à solidariedade do abastado povo português em prol das desgraçadas vítimas dos incêndios. Ser solidário nestes moldes é simples, basta pegar no telefone da rede fixa, digitar um determinado número, e automaticamente a pessoa terá acabado de doar 50 cêntimos a serem debitados na conta telefónica do mês em curso.
Nessa conta telefónica surgirão mais precisamente 60 cêntimos, uma vez que à doação dos 50 cêntimos é acrescida do pagamento de 19% de IVA pela chamada telefónica. Não deixa de ser vergonhoso que num país que apela à solidariedade, seja o Estado a desmoralizar não se coibindo de cobrar os 19% pela chamada, mesmo que esta seja justificada pela iniciativa de solidariedade. Soube que a Associação Nacional de Bombeiros propôs aos seus sócios que oferecessem um dia do seu salário em favor das vítimas desta catástrofe. Que bem ficaria às entidades oficiais deste país, às pessoas, aos políticos, aos responsáveis, desafectarem-se de algumas das suas regalias em favor de quem mais precisa.
Imagine-se que decidimos oferecer um pastel de nata ou um litro de leite a alguém necessitado, e que avistamos vindo lá da esquina, no seu passo pesado e cambaleante, um bem nutrido funcionário das fiscalizações do Estado para a solidariedade (cargo a instituir), apressando-se a dizer-nos que está nas leis e que “lá terá que ser”, terá de comer um quinto do pastel de nata e beber 20cl daquele leite fresquinho. “São as leis, meu amigo, não me interessa cá se é pra dar aos pobres ou se é pra dar aos ricos, imposto é imposto, se der zero é-lhe tributado zero.” Isto é o mesmo que comprar um T5 no Restelo e ter de oferecer um dos quartos a um funcionário público.


 
Há dez anos, no dia 13 de Agosto
Lembro-me de como é que acordei no dia 13 de Agosto de 1993. Depois de uma noite em que andei atarantado em busca do Santo Graal nos céus portugueses, despertei com uma tremenda dor no pescoço, umas olheiras até aos tornozelos, e com a leve sensação de que tinham andado a achincalhar o nome da minha família. Como responsável por este episódio aponto o dedo ao já apelidado ‘Pacheco Pereira dos astros’: o astrónomo Máximo Ferreira.
Passada uma década, ainda hoje procuro esse senhor astrónomo para ver se o felicito com um peitoral bofetão pela fantástica capacidade de pôr 10 milhões de portugueses de nariz para ar feitos parvos. Máximo Ferreira tem motivos para se julgar o homem mais odiado de Portugal. Eram, lembro-me da altura, ao ritmo de 50 mil estrelas por hora, se o céu estivesse limpo. E até o céu pareceu contribuir para alimentar este embuste astronómico.
Máximo Ferreira serviu para desacreditar tanto astronomia em Portugal, ao ponto de jamais o país conseguir recuperar do choque desse dia. Nos próximos séculos a astronomia será uma actividade amaldiçoada, os astrónomos serão olhados com desdém e como motivo de chacota. E ao professor Máximo Ferreira, pelos piores motivos, estará já reservado um lugar no panteão dos maiores equívocos da História.
Em 1993, Máximo Ferreira dizia que a anunciada chuva de estrelas iria cair sobre a vertente Leste junto à constelação das Perseidas, e repetir-se nos anos seguintes, atingindo o pico sempre nas madrugadas dos dias 12 para 13 de Agosto. Esta noite lembrei-me disso, ainda assomei à janela, observei a Lua cheia de vaidade, fiquei tentado a observar as estrelas. O trauma da situação vivida há 10 anos falou mais alto.
Este candidato a Copérnico português ficará na História como o astrónomo mais ridículo de sempre. Não há nada mais aviltante para uma pessoa honrada do que se pôr a olhar para o céu à espera que caiam estrelas e sentir que atrás de nós há um astrónomo que se ri do engodo em que nos fez escorregar. Galileu teve um destino mais digno do que o que este professor mereceria.


terça-feira, agosto 12, 2003
 
Entre o espeto e o graveto
Margarida Martins está magra. É horrível, detesto mulheres magras. E de repente apareceu com uma filha. Será que as mulheres quando ficam magras atraem a maternidade? O problema é que a rapariga já deve ter uma dúzia de anos. Pergunto-me porque é que só agora foi apresentada à sociedade. Ou será que a pequena viveu durante todos estes anos aprisionada dentro do corpo de Margarida Martins? O astigmatismo que me provocam os bafos do deserto por si só não justifica estas visões distorcidas.


 
Antes perder a graça do que cair em desgraça
Em entrevista ao jornal de referência 24 Horas, a Provedora da Casa Pia, Catalina Pestana, afirmou estar profundamente abatida com aquilo que tem ouvido dos “miúdos” nos últimos meses. A Provedora diz que se vai embora no final da investigação e quem vier atrás que apague a luz. Julgo que não apagar a luz foi mesmo o principal problema que esteve na origem deste escândalo. Se alguém mais previdente se tivesse lembrado de apagar a luz, por esta altura não estaríamos a discutir a prisão do Carlos Cruz ou do Paulo Pedroso. Catalina Pestana diz por fim que “era uma mulher bem disposta e agora perdi a graça.” Lá que Catalina Pestana achasse que era bem disposta e que tinha alguma graça, ainda damos debalde. Agora que diga com tanta convicção que era uma mulher...


 
Um fáite dáivers
A cantora Rebbeca (absolva-me a visada caso a minha pontaria haja errado na consoante repetida), uma das discípulas da cantora Ágata, não quer ficar atrás da sua impulsionadora e começou entretanto a fazer estragos na sanidade mental do já de si sacrificado povo português. No programa Portugal Solidário da TVI, foi pedido à cantora Rebecca que lesse de um cartão a morada de um Governo Civil no qual os portugueses poderão deixar as suas doações em favor das vítimas dos incêndios. Ficámos então por intermédio da Rrebeca a saber que o Governo Civil de Setúbal fica situado logo a seguir ao Cais das Fontaínhas, junto aos férri boátes.
Já lá vai o tempo em que os portugueses, para irem de férias para o Algarve, se habituaram a perguntar ao simpático povo sadino: “faz favorr, ó amigo, sabe-me dizerr parra que lado é que ficam porr aqui os férri boátes!?”


 
Papa metido ao barulho no negócio dos guarda-chuvas
O Papa João Paulo II rezou pelas vítimas dos incêndios e pediu a Deus para que enviasse chuva. Lamento ter de o dizer, mas na minha opinião esta é mais uma opção discutível do Santo Padre e revela alguma falta de sentido estratégico para estes assuntos da gestão religiosa. Teria sido mais sensato pedir simplesmente que se extinguissem todos os incêndios, em vez de pedir que viesse chuva, o que no próximo inverno vai obrigar Sua Santidade à trabalheira de rezar pelas vítimas das cheias e pedir a Deus para que volte a enviar sol. E não saímos disto, é a chamada redundância papal, vira o disco e toca o mesmo. Para além do mais, pedir chuva nesta altura do campeonato não vem beneficiar outra entidade que não os especuladores da actividade dos guarda-chuvas. Quando é que se põe travão a estes favorecimentos totalmente imorais? Desde o grande dilúvio que os vendedores de guarda-chuvas são indecentemente beneficiados pelas sumidades religiosas.


domingo, agosto 10, 2003
 
O que está a dar são os guarda-chuvas
Tu tens jeito para o negócio, pá! É o que costumam dizer os meus colegas quando me olham assim de lado e, com a mão do lado oposto ao lado sobre o qual me olham, vão disfarçadamente ao bolso procurando conferir se ainda lá têm as respectivas carteiras. Estranham como é que um indivíduo como eu, eclesiástico, entregue de corpo e alma ao Santo Deus e às santas preces, conseguiu em tão pouco tempo atingir um tal cômoro financeiro, uma tal estabilidade no campo da multiplicação dos Euros. Olham com alguma cobiça para a qualidade superior do tecido da minha batina (Armani), para a cintilação da fivela de ouro do meu sapato (Augustus), para a qualidade do gel que abrilhanta o meu cabelo e faz de mim o ardor de todas as fiéis da paróquia. Respondo-lhes que a vida monástica nos dá essa premissa, emprego garantido e ordenado a tempo e horas, benefícios fiscais e contactos privilegiados com Deus para algum aperto inesperado. Eles olham-me como quem olha para um agiota...
Vem isto a propósito do jeito para o negócio. Do jeitinho. Ter alma de negociante não se conquista. Ou se é descendente de família chinesa, indiana ou libanesa, ou então nada feito. Tudo o resto são imitações. O preço do chá, do whisky, do ouro, do petróleo, ao longo de diferentes períodos da História foi servindo de barómetro para definir o estado da economia mundial. Estou, é claro, a inventar tudo isto, percebo eu tanto disto como o Peres Metello da liturgia em Latim. O que sei, e estou ainda a inventar, é que hoje em dia o barómetro da economia mundial é feito com base no negócio dos guarda-chuvas. Se a economia mundial estiver de boa saúde, os guarda-chuvas sobem de preço, se estivermos em época de recessão o primeiro sinal é dado pela queda no preço dos guarda-chuva... É um índice fiel.
Gostaria de deixar-vos aqui um carimbo de altruísmo. Um nota de consultoria financeira. Sem querer armar-me em corretor ou especulador bolsista, quero no entanto firmar o meu parecer no que respeita àquilo que entendo ser uma oportunidade de ouro para fazer uma boa maquia de dinheiro. Há pessoas que ganham rios de dinheiro a fazer isto que eu agora estou a fazer. E por vezes fazem os outros perder rios de dinheiro. Mas centremo-nos nos guarda-chuvas. O finance consulting já deixou de contratar economistas. Hoje em dia contrata meteorologistas.
É uma questão de prioridades estratégicas. Esqueçam as obrigações, as acções, os planos de poupança reforma. A fortuna, o fausto, esses conquistam-se à custa dos guarda-chuvas. O segredo está em comprá-los agora, baratos, ao preço da chuva, adquiri-los como quem compra pevides, para vendê-los daqui a alguns meses, ao preço do sol, pelo triplo ou quádruplo do preço de compra. A margem de lucro faz deste um investimento bastante seguro. Simples, rápido e seguro. E não é preciso ser libanês.


 
Regionalização climatérica
É para mim inconcebível que num país tão pequeno se apurem ainda, em pleno século XXI, tão significativas diferenças. Sou favorável à diversidade dentro desta unidade que faz de Portugal um compósito por vezes explosivo, por vezes amorfo. Mas entristece-me que sejamos tão mesquinhos ao ponto de todos quererem ser mais iguais do que os outros ou radicalmente diferentes de todos.
Hoje estive a reparar na previsão do Instituto de Meteorologia para as temperaturas máximas, e fiquei estupefacto que em cerca de 100 quilómetros de distância, entre o Porto e Vila Real, houvesse uma diferença de 13 graus centígrados (26 para o Porto, 39 para Vila Real). Isto quer dizer que em cada oito quilómetros de caminhada para Leste o mercúrio no termómetro sobe um grau. A não ser que o termómetro seja digital. Inconcebível!
O Leste já não é o que era...


sexta-feira, agosto 08, 2003
 
O que foi inventado primeiro: Portugal ou os portugueses?
É sabida a capacidade do bom português para inventar tudo o que há de mais inútil. Não está no livro do Génesis, mas sabemos que quando Deus preparou a espécie humana chamou um português para inventar qualquer coisa inútil. E o português inventou a mulher. O que sucedeu foi que Deus solicitou ao tuga para inventar um objecto perfeitamente inútil com o qual o homem se pudesse divertir à noite depois de chegar a casa exausto de um dia de caçadas. E aquele português, afectado nesse domingo pela derrota humilhante do seu Benfica no campo do Grutas de Lascaux em jogo a contar para a Liga dos Campeões Pré-históricos (os espanhóis do Grutas de Altamira foram à final nesse ano), não esteve com meias medidas, olhou para a panela de pressão, para a embalagem do Cif, e disse: “não faz muito o meu género, mas hoje é que vou ter mesmo de inventar a mulher!”
Claro, estou a brincar. Na verdade, quem inventou a mulher foi um espanhol.

Bom, o artefacto mais estapafúrdio é com certeza invenção de um português. A algália com acesso à internet, o telemóvel com informação da entrada no período menstrual (para ela e para ele), o preservativo com sabor a óleo de fígado de bacalhau, tudo isto foi invenção de um portuga tresloucado.

A Humanidade, essa ingrata, deve muito a Portugal no campo das invenções. Por exemplo, o prefixo ‘pré’ deve-se a Portugal. Sem ele, hoje já estaríamos a viver na História, uma humilhação para um povo milenar como o nosso. Assim, continuamos e continuaremos na pré-história, que é o nosso lugar. Outra, quiçá a principal invenção até hoje, fica também a dever-se ao prestimoso povo português: o fogo. Para sermos honestos e não adulterarmos a precisão histórica, temos de dizer que a invenção do fogo se deve em partes iguais a um português e a uma sueca.

O português acoitava-se em cima daquele lombo sueco à procura de inventar o orgasmo. Enquanto não conseguia chegar a essa maravilhosa descoberta, o português entretinha-se a inventar palavrões uns atrás dos outros. Mais palavrão, menos palavrão, e já depois de ter conseguido inventar o imprevisível ponto g (embora esta invenção pré-histórica ainda hoje esteja por provar), o português exultou, convencido de que finalmente, à 3691ª tentativa, teria conseguido inventar orgasmo feminino. Na verdade, tratava-se sim da invenção escandinava da simulação do orgasmo feminino. Mais uns palavrões e umas metáforas sexuais do imaginativo português, e uma das mais bem conseguidas invenções portuguesas acabava de suceder: “Ó filho, acabaste de inventar a falta de virilidade”; ao que o português logo de imediato tratou de inventar a violência doméstica e calou a boca da sueca à força de duas bem mandadas arrochadas à portuguesa. Era uma época muito alvoroçada, esta das invenções.

De todas estas invenções de que há memória, a do fogo foi aquela que até hoje mais incêndios vem provocando. É certo que o português e a sueca não conseguiram inventar o fogo nesse dia, mas o mesmo português, insistente, não desistiu, e no dia seguinte teve uma ideia. A ideia é também uma invenção portuguesa. A boa ideia.

Estavam então dois portugueses descansadinhos lá na pré-história, uma mão a afagar o bigode, outra coçando as partes podengas, quando um deles se lembra: “ouve lá, esta coisa das bolas foi das coisas mais bem inventadas logo a seguir ao bigode”; o outro responde: “pá, se inventámos os dedos, tínhamos de inventar alguma coisa para os entreter.” O vigor empregue nesse exercício de fricção era tanto, que escassos foram os minutos necessários para estar descoberto o fogo, o melhor amigo do incendiário. Enquanto o português com o baixo ventre em combustão bramia aos deuses pela sua masculinidade perdida, o outro português, esperto, associou de imediato: “espera lá, se isto dá com os tomates, também deve dar com a pedra de sílex!!!” Este português recebeu um prémio qualquer, de uma associação de bombeiros.

Para quem não se recorda dessa época, nós avivamos a memória e recordamos que naquela altura não havia tanto entretenimento como há hoje em dia. Havia duas ou três salas de cinema, embora sem filmes, porque nessa altura ainda o cinema não tinha sido inventado. Os portugueses passavam o dia de papo para o ar a tentar inventar o pipi que acompanhasse a Imperial que já tinham inventado. O ócio, essa invenção lusitana, contrapôs-se ao tédio, que foi tempos mais tarde inventado por uma espécie de portugas insubmissos que já tinham engendrado inventar a emigração. Só para serem do contra, estes portugas inventaram também o ser franciú e acharam que, já que tinham inventado o ser franciú, deviam inventar também o conceito de trabalho e as casas à la maison, que em tempo de regresso de férias contribuiriam para dar origem ao tédio.

O tão português ócio é porventura a mais importante invenção de todos os tempos. Não é precisa muita inteligência (conceito ainda não inventado) para entender o porquê. O ócio em excesso conduziu à invenção do um dos cunhos do ser português, a barriguinha, o chamado abdómen acabrunhado:
“mas ó português da pré-história, se nós já inventámos o pneu, temos de pedir a alguém que invente a roda”
“deixa estar, alguém se há-de encarregar disso.”
Nem todas as invenções dos portugueses eram espalhafatosas. Algumas eram mesmo bem subtis, dissimuladas, cínicas mesmo:
“Mmm, cheira-me que acabaste de inventar a bufa.”
Uma invenção que desde logo se revelou muito imperfeita.
“Isso pode ser aperfeiçoado; ouve-me só isto!”
E estava inventado o traque.
Às tantas começaram a escassear coisas para serem inventadas. A máquina de café estava inventada, o casamento também, o divórcio também, a troca de casais também.
“Ó tuga pré-histórico, então e agora o que é malta vai inventar?”
“Eh pá, e se inventássemos a pedofilia?...”
“Está bem, vira para cá a bilha.”
“Mas espera lá, a bilha já foi inventada?”


quinta-feira, agosto 07, 2003
 
Inundações no outono
É o que se perspectiva depois da vaga de calor que assola o continente europeu. A temperatura da água no Mar Mediterâneo ronda os 28 graus centí­grados (agradável para ir a banhos, mas capaz de nos trazer problemas a breve trecho), o que, segundo os especialistas, poderá causar, no espaço de dois meses, chuvas abundantes e inundações em diversos pontos do continente. Ora, eu cá não tenho problema com as cheias, que me ponho aqui no cimo do campanário, de portátil em punho a escrever directamente para a bloga. Mas o fenómeno preocupa-me. A minha cadela não sabe nadar. Aliás, todos estes fenómenos me estão a preocupar bastante. (Sinto-me um verdadeiro Jorge Sampaio, sempre preocupado, embora sem nada fazer.) Talvez seja hora de o gerente desta chafarica, o senhor Bush, acordar para os verdadeiros problemas que assolam o rancho. Antes que seja demasiado tarde...


 
Comentário jocoso de Judas Iscariotes na última ceia
Nem o pai morre, nem a gente o almoça!
(nota bibliográfica: aqui ou aqui.)


 
Álgebra e aritmética segundo Gabriel Alves
Esse catedrático da malha futebolística, esse professor Marcelo dos relvados, esse Manuel Maria Carrilho da hermenêutica ludopédica, Gabriel Alves PhD, alvitrou, a propósito da contratação de Ricardo pelo Sporting, que nas contas finais do campeonato um bom guarda-redes vale... 13 pontos. Truca, nem mais nem menos! Ao saber disto, o Benfica desde logo anunciou que na próxima época irá alinhar em todos os jogos com onze bons guarda-redes.


 
Programas de rádio na blogosfera
Um dos muitos fenómenos curiosos da blogosfera é a complementaridade que alguns programas de rádio encontram nesta forma de chegar às pessoas. O ouvinte atento procura sempre algo para lá do programa de rádio, sobre o que se esconde por detrás da voz ou da música que é passada em antena. E isto é possível sem quebrar o mistério intrínseco ao fenómeno rádio. Esta complementaridade é afinal o futuro, a rádio interactiva, informações que ultrapassam a dimensão do conceito rádio e que ajudam a completar o programa que é emitido.
Assumo que haja muitos mais, mas a minha navegação pela blogosfera detectou três exemplos distintos daquilo que pode ser a bloga de um programa de rádio.
Vidro Azul Ruc é a bloga de Ricardo Mariano sobre o programa Tangências. Em tempo de verão, este programa é emitido todas as segundas-feiras à noite na Rádio Universidade de Coimbra (RUC), em 107.9 fm para a região de Coimbra, ou em emissão online no site da estação.
Íntima Fracção, o lendário programa de Francisco Amaral, pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir, de sábado para domingo, entre a 1 e as 3 da madrugada, na TSF, ou na respectiva bloga. Informações sobre o alinhamento musical dos programas, e outras interessantes reflexões de Francisco Amaral.
Quem também mantém uma bloga activa é aquele que já foi apelidado de ‘o mais truculento das blogas’, Carlos Vaz Marques (CVM). A bloga deste jornalista da TSF não está associada a qualquer programa de rádio, embora amiúde sejam abordados assuntos relacionados com a actividade profissional de CVM.


quarta-feira, agosto 06, 2003
 
Há vida inteligente na blogosfera II
Como devem imaginar eu tenho mais que fazer do que vos aturar. Mas mesmo assim aturo-vos. O chamamento divino e as actividades a ele inerentes ocupam-me grande parte dos dias. Há beatas para quem a confissão é uma exigência diária, oficializam-se matrimónios, celebram-se baptizados, exorcizam-se mentes e corpos contaminados pelos azebres do diacho. Porque nesta bloga não existe uma lista de ligações (estas vão sendo apresentadas quando se justifica), e porque se entende que o sucesso dessa actividade pornográfica e onanista que é o bloguismo sobreviverá apenas se lhe alimentarmos a teia, vou deixar uma lista de blogas que visito, que gostaria de visitar mais vezes, ou que não visito de todo mas que gostaria que visitásseis.
Nem sempre a qualidade do conteúdo está associado à frequência com que me apraz visitar determinado conjunto de blogas. O chamamento está relacionado com outro tipo de variáveis, tema interessante sobre o qual discorrerei em altura mais fresca.
É por isso que deve ficar claro ao meu leitor que as blogas que aqui deixo não são necessariamente as melhores. O mais provável é que sejam mesmo as piores. Só para avisar. Depois não venham cá cobrar...

Gato Fedorento é provavelmente o gato mais malcheiroso do mundo. Basta ter aos comandos Tiago Dores, Miguel Góis, Ricardo de Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela. A ironia e o sarcasmo são as pedras de toque. É pena que em tempo de Verão se estejam a marimbar para nós, que precisamos da dose diária de Gato Fedorento nas nossas veias.

Bomba Inteligente é a bloga das deliciosas banalidades, das deliciosas trivialidades, dos deliciosos assuntos sem grande interesse. Deve ser por isso que lá vou, não sei bem. É uma menina que caiu no goto das massas blogueiras e que funciona um pouco como um dos deuses da blogosfera (já houve quem lhe chamasse a mãe dos blogues, eu se fosse Charlotte dizia “vai lá chamar mãe a outra.”) Preferimos o epíteto de deusa da blogosfera. Não acreditamos muito que nos faça algum bem, mas nem por isso deixamos de crer fielmente na personagem. Vou lá todos os dias. Todos. Sempre em busca daquela banalidade indispensável que vai colorir o meu dia. Isto deve ser entendido como um elogio. A blogosfera está alagada de banalidades, mas as da Bomba Inteligente são provavelmente as melhores.

Crónicas Matinais é uma bloga da jornalista Ana Albergaria e que reconheço como uma das mais interessantes à face do blogoglobo. São os acasos de uma vida, uma vida que desperta interesse, interesse transportado para a bloga.

A Praia é de Ivan Nunes, professor de Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. O desterrado. Ao Ivan Nunes tenho de agradecer a inspiração para o meu template. Porque a palavra plágio deve fazer todo o sentido. Não lhe chamo adaptação, porque um processo judicial por cópia era capaz de dar alguma visibilidade à minha bloga, quem sabe. A Praia sabe bem, mesmo no Inverno.

Bicho Escala Estantes é sinónimo de livraria, encontro com escritores famosos, consultoria literária. O senhor Vincent ajuda a completar o meu imaginário.

Dicionário do Diabo de Pedro Mexia. Polémicas e um computador que avaria de vez em quando. Pedro Mexia confundido com um metaleiro, a polémica em volta da esquerdice ou não da TSF, uma bloga virada para a discussão um tanto em círculo fechado, mas que permite, quando não se põem com intelectualices bacocas, um pouco do nosso voyeurismo.

A Armada Invisível é composta por um conjunto de grumetes (João Quadros, Aldo Lima, Nilton Mendes, Eduardo Madeira.) Só os dois primeiros trabalham, no entanto. Sobretudo o primeiro. Garantimos que nenhum hospital psiquiátrico reclamou a fuga destes perigosos indivíduos. A piada inteligente e rápida, ideal para ler logo de manhã, ou antes de deitar. Carece de actualização constante. Sugerimos uma nova piada a cada duas horas.

O Meu Pipi, talvez por Júlio Machado Vaz. Palavras para quê, é um fodilhão português. (Atenção, o nível literário dos artigos d’O Meu Pipi poderão ferir os leitores mais sensíveis e menos acostumados.)

Caderneta da Bola. A petite-histoire do universo futebolístico português. A historiografia, regada com pipas de bom humor, sarcasmo, e recordações das figuras mais emblemáticas dos nossos relvados (e ainda dos pelados.)

E-maranhada é como anda Luísa desde que entrou nesta coisa das blogas. Uma bloga sobre a vida difícil de uma recém licenciada.

Outro Lado da Lua é onde muitos de nós se escondem em tempos de crise. Não sei se é de crise ou não, mas a autora desta bloga vive por lá, e nós visitamo-la de quando em quando.

Blog do Romance. Aprender a ler, a escrever, e compreender que até você pode publicar um livro.

Espuma dos Dias. Bloga de Sarah Adamapoulos. Sim, é famosa, trabalha com letras e palavras.


 
Há vida inteligente na blogosfera I
Tenho vindo a descobrir com alguma surpresa que há vida inteligente no universo das blogas. E mais surpreendido venho ficando ao reparar que alguma dessa vida inteligente tem perdido tempo a falar de nós sem que tenha sido para dizer mal. Ora, isto configura um dos maiores paradoxos de que há memória: ser inteligente e ao mesmo tempo falar de nós sem ser para dizer mal. Ocorre-me mesmo que este é um absurdo só comparável à bizarria prestada pelo júri da Operação Triunfo: “estás lá, estiveste bem, dominas a técnica, a tua actuação pôs-me com pele de galinha e à beira da turgidez erótica, por isso, toma lá que já almoçastes, vais ser um dos nomeados!” (Aplausos da assistência) Prontus, aceito que o júri da Operação Triunfo não fosse um exemplo fidedigno de inteligência e, ao que se saiba, tirando a Simone de Oliveira, nenhum dos seus componentes possui bloga na internet.

Uma pesquisa rápida pelos recantos da blogosfera evidencia que houve pessoas que nos leram, que se deram ao trabalho de falar de nós e que não tiveram vergonha de serem apontados na rua como “aqueles que estão a alimentar o monstro.”

Em primeiro lugar, é preciso distinguir as blogas que apenas referem a existência d’Os Crimes do Padre Amaro, daqueles que, para além da menção pura e simples, comentam ou nos dedicam algum tipo de destaque.
Dentro do primeiro caso, Os Crimes do Padre Amaro figuram em diversas listas de ligações de outras blogas. Seja em extensas listas nas quais a selecção resulta de uma escolha arbitrária que não obedece a qualquer critério qualitativo; seja em blogas cujas listas de ligações são mais reduzidas, selectas, e onde se revela uma depuração decorrente dos gostos pessoais do autor. São exemplos o descontínuo e intermitente Tracejado de Clara M. que simpaticamente nos elegeu para fazer parte de uma restrita lista de ligações essenciais; da bloga da direita Nova Frente (presumimos que Manuel Monteiro não tenha nada que ver com isto, valerá por isso dar lá uma saltada); o Mau Feitio da Patrícia; ou o incontornável O Incontornável, agora com uma actualização mais constante.

Num outro plano, alusões mais específicas a Os Crimes do Padre Amaro. A bloga Guerra e Pás resume a sua avaliação a duas palavras, uma das quais repetida três vezes: “Muito, muito, muito bom!” A perplexidade não está no tipo de avaliação, mas sim na repetição tríplice da palavra ‘muito’, quando é sabido que no actual contexto nunca a nossa bloga mereceria mais do que um ‘muito’ e meio. Guerra e Pás é uma bloga que aborda alguns dos temas pertinentes que norteiam a actualidade, das quais eu destaco as interessantes análises à importância e real estado da imprensa escrita em Portugal. Em Tradução Simultânea encontramos um dos mais cabalísticos comentários sobre Os Crimes do Padre Amaro. Para o autor desta bloga, Os Crimes patenteiam um “humor negro e jacobino”, o que acolhemos como um elogio, passível de vénia de agradecimento. Umblogsobrekleist é uma das mais distintas blogas deste universo, cada artigo é motivador para uma leitura e prende-nos com firmeza ao monitor dos nossos computadores. A escrita é irrepreensível e outro motivo de satisfação. Foi-nos dado a conhecer quando Alexandre Andrade nos colocou em 7º lugar como um dos 10 mais interessantes blogas do momento, na sua opinião. E passámos a ser clientes assíduos. A aparência têm o seu quê de divergente com o que é o padrão das blogas actuais, o fundo verde causa estranhamento, mas o conteúdo faz-nos devotos de Umblogsobrekleist. Já o Blog de Publicidade salienta-nos na sua coluna ‘blog em destaque’. E-maranhada, para além de ser uma consumidora assídua dos dislates do Padre Amaro, refere-se também em diversas ocasiões à nossa bloga, sempre em termos elogiosos. A todos os que depositaram confiança no nosso trabalho, o nosso mais profundo agradecimento. Prometemos para o futuro fazer ainda pior do que isto...


terça-feira, agosto 05, 2003
 
Tenho as unhas dos pés feias
Em tempo de calor ando descalço pela sacristia. Detenho-me a observar as unhas dos meus dedos dos pés. Acho-as feias, desproporcionadas, marcadas como por estigmas de guerra. Tenho os dedos calejados, duas unhas negras, outras tortas, esquinadas, rudes. As unhas dos pés das meninas da Ribeira do Sado devem ser mais bonitas do que as minhas. O problema é que a aparência disforme das unhas dos meus dedos dos pés prejudica gravemente a minha vida sexual. Devem estar a perguntar-se se não é suposto um eclesiástico não ter vida sexual, ou ter uma vida sexual de sentido metafísico, consagrando o seu corpo a Deus e a mais ninguém... E é verdade que não tenho vida sexual. As minhas unhas não mo permitem. Sempre que olho para as minhas unhas dos pés estou a pôr em cheque qualquer tentação da carne. Já me ocorreu iniciar a minha vida sexual de peúgas (vi isto num filme), mas ela começou-se a rir e foi-se embora.


 
Rir é o pior remédio!
Ando deprimido. É algo que só se explica por ser um espectador habitual do programa Levanta-te e Ri. Acontece que, quando me sento no sofá para assistir à sessão semanal de piadas a eito, costumo estar até relativamente bem disposto. Mas quando se aproxima aquela parte em que emerge o rei do gracejo fácil já a depressão tartamudeante se abateu sobre mim com a impetuosidade de um barrosão cobridor. É uma sensação terrível.

O Levanta-te e Ri demonstra-se cada vez mais um autêntico delírio de piadas goradas, de punchlines que não acertam no alvo, de supostos humoristas agenciados num estaleiro do Euro 2004 para atirarem ao ar duas ou três brejeirices foleiras de um humor leve e basicozinho.

Tem faltado ao programa, assim como à generalidade da stand-up comedy à portuguesa, ousadia. Alguém capaz de romper hímenes às consciências mais conservadoras do nosso país. Faltam humoristas que ponham os bispos da nação a subir pelas paredes e a acorrer no dia seguinte aos sacrossantos microfones da Rádio Renascença num queixume: “aprendi mais naqueles cinco minutos de stand up do Ricardo de Araújo Pereira do que em toda a minha vida.”

O que agora sucede com os nossos bispos é um fenómeno que urge evitar a todo o custo. Num estudo levado a cabo pela minha sempre atenta cadela, a maioria dos clérigos superiores inquiridos revela adormecer durante o programa, outra parte diz que prefere assistir à mesma hora ao filme de um canal de reprodução assistida (assistida porque a assistência se prostra diante da pantalha como cães de fila atiçados), e a parcela ínfima que resiste à tibieza daquele humor básico vai proferindo baixinho em comentário de sacristia: “Aquele Fernando Rocha está acabado” ou “ó Aniceto, não achas este Marco Horácio parecido aquele guarda-redes que o Sporting foi buscar este ano ao Boavista?”

O Papa como um exemplo a seguir
Acostumados que estão a autênticos documentos vivos sobre a melhor fórmula para fazer stand up comedy (as elegias papais sobre o uso do preservativo, a eutanásia ou o aborto, põem o tipo de humor do Levanta-te e Ri a um cantinho), o bispado é uma das classes mais difíceis de satisfazer no que concerne ao campo do humor. Entende assim a minha cadela que os bispos devem funcionar como um barómetro para o refinamento do humor em Portugal.

“Se os bispos ficam calados, é porque não conseguimos ter piada absolutamente nenhuma”, ladra o canídeo raivoso. “Mas se um bispo abre a boca é de certeza porque tem vontade de dizer uma piada ainda melhor.”

Não é compreensível que, sendo Portugal um país cheio de figuras que se oferecem para mártires num bom texto de humor, se continue a claudicar nos objectivos a abater. Continua a pensar-se que fazer rir um português assenta na já gasta fórmula do bolo na cara, do trocadilho revisteiro, ou do palavrão fácil. Infelizmente, e revelam-no as evidências, ainda é assim que o bom português ri. Rir com inteligência é difícil, porque a inteligência, essa, exige talento, e a busca do talento obriga a esforço. E o esforço, como é sabido, não está ao alcance de qualquer bom português. Trata-se aqui da inteligência, talento e esforço de quem leva o humor até si, capaz de desencadear no espectador o tipo de actividade mental necessária à descodificação e bom efeito da piada.

O humorista tem necessariamente de ser roto?
O humorista deve ser, em primeiro lugar, alguém que não se incomode nada em ter apenas inimigos, incluindo a própria família. D. Afonso Henriques foi o primeiro humorista português. O facto de ter inventado este país foi a sua primeira e mais fatal piada. O humorista, essa espécie exótica do panorama das aves raras da nossa socialite, deve estar preparado para fazer piadas sobre tudo o que mexa, e mais ainda sobre aquilo que se mexa muito, incluindo sobre a vida sexual da tua mãe, que, consta, se mexe bastante...

O humorista deve funcionar como um piloto de caça norte-americano. Deve saber seleccionar os seus alvos e lançar inteligentemente a piada procurando provocar a maior extensão de danos colaterais possível. E depois ser capaz de dizer bastante cinicamente que se limitou a atirar sobre a Dulce Pontes porque a gaja se pôs a jeito para levar uma bordoada humorística.

Há intocáveis no nosso país
A minha cadela diz sobre estas matérias: “ão, ão, ão, ão, béu, béu, ão, ão, ão, rrrr!!!”, e eu traduzo, para aqueles leitores menos versados em linguagem de pincher: “em Portugal não se pode brincar com certas instituições. Uma das conclusões deste estudo é que a família Soares, por exemplo, leva muito a mal qualquer tipo de graçola que se faça contra as sequelas que o acidente aéreo na Jamba deixou no intelecto do filho João." É ainda proibido fazer humor com a instituição militar, com a igreja, e fica mal fazer humor com alguma classe política: "Isso pode trazer ao humorista alguns problemas. E essas são precisamente as classes que têm mais telhados de vidro no nosso país.”

O humorista vive mal em Portugal, é outra das conclusões. As restrições do mercado obrigam a maioria dos humoristas a recorrer a profissões paralelas, nas quais auferem muito mais do que aquilo que ganhariam se exercessem a profissão de humorista a tempo inteiro. Há casos de humoristas que durante a noite arrumam carros na Avenida 24 de Julho ou no Cais de Gaia, e que passam os dias em claro preparando os textos que vão apresentar ao fim de semana. O caso é tão dramático ao ponto de alguns exercem mesmo a mais antiga profissão do mundo. Mas maior transtorno causa a esta classe honrada o facto de alguns deles se verem obrigados a exercer em simultaneidade a actividade política para sobreviver. Um conceituado político do nosso país (que não dá pelas iniciais de JPP), referiu que ganha muito mais fazendo parte de um painel de comentadores políticos num programa de televisão onde tem de ir apenas uma vez por semana, do que apresentando um sketch de humor na televisão em horário nobre: “consigo divertir na mesma as pessoas, e ganho muito mais, a maior diferença é que na actividade política somos obrigados a fazer imensas citações de cor. Isso é que é uma chatice!“

Ricardo de Araújo Pereira é o maior
No meio da aridez que configura o panorama da stand-up comedy em Portugal, há no entanto alguns nomes que se destacam. Não encontro mais do que três pessoas em Portugal capazes de fazer boa comédia, de levar a bom termo o processo que o devir humorístico exige, dos fornos da criação, até ao momento da exposição pública. São eles: Ricardo de Araújo Pereira (Produções Fictícias), João Quadros (Script Doctors) e Alberto João Jardim (PPD/PSD Madeira.) Uma menção ainda para o professor Júlio Machado Vaz, o putativo autor da bloga O Meu Pipi, cujo único pecado é recusar-se a trabalhar em horário nobre, conformando-se num programa de bas-fond de um canal regional, onde adopta uma postura low-profile e, ironicamente, vai citando Miguel Torga.

Cada um apostado num tipo de humor que crê ser o mais intencional, Ricardo de Araújo Pereira é, sem dúvida, o homem que domina o panorama na actualidade. É digno de realce o cuidado posto pelo jovem humorista nos textos que elabora e na forma como são expostos a audiências quase sempre exigentes (porque não acostumadas a um género de humor que elimina quase na totalidade a mímica e o recurso à obscenidade gratuita, em prol da sugestão, do humor negro e ácido, da subtileza.)

Ricardo de Araújo Pereira é do que melhor se escreve em Portugal. Não é alheia a sua experiência de anos na escrita para Herman José e noutros trabalhos desenvolvidos pelas Produções Fictícias. Como apresentador das suas próprias piadas, Ricardo de Araújo Pereira destaca-se também do burburinho tumultuoso da mediocridade. O seu tempo de comédia é o perfeito, o texto é minuciosamente preparado e a actuação sempre surpreendente (só não gostámos da personagem Mada Faca, um atentado à dignidade do humorista Óscar Branco, para além de que não tinha assim tanta piada.)

Uma infância difícil
Desenganem-se aqueles que julgavam que Ricardo de Araújo Pereira teve uma infância feliz. O guionista, confesso seguidor dos ideais de esquerda, ostentando no seu quarto uma boina à la Guevara e uma bandeira de Cuba, foi educado segundo os trâmites de educação de uma família conservadora onde imperavam os valores da direita tradicionalista (bacalhau na ceia de Natal, catequese, apetites anti-comunistas.) Talvez por isso, bem cedo o rapazinho Ricardo foi encaminhado para o aristocrático Colégio da Luz, onde traçou as linhas de rumo da sua vida futura. Aí ganhou inspiração para a personagem Diácono Remédios. A indecisão entre seguir o papel de organista da Igreja da Luz, incendiário florestal free-lancer ou guionista profissional resultou numa perturbação que o conduziu à escrita da recensão crítica da obra O Que Diz Molero de Dinis Machado, distinguida pelo prémio Caixa Geral de Depósitos do Concurso Nacional de Leitura. Ficou em 1º lugar a nível nacional e europeu do concurso de crítica de cinema jovem do Festival de Cannes. Quem diria! A grande ironia em Ricardo de Araújo Pereira, e ao mesmo tempo a melhor piada de todas, a punchline ideal, e que guardamos propositadamente para o fim pela risota infindável que vai provocar nos meus leitores, é que RAP é benfiquista!


segunda-feira, agosto 04, 2003
 
Sugestão de viagem
Aproveite estes dias de férias, se for o caso, para uma paragem idílica na belíssima localidade de Bujões, situada poucos quilómetros a Nordeste do Peso da Régua. Garantimos-lhe, quem nunca considerou viajar ao Peso da Régua e gozar uns dias alucinantes por terras de Bujões não pode dizer que já tenha experimentado tudo.


 
Militante do CDS/PP insurge-se contra este ‘blogue’
O Manelito é uma leitora nossa de Carrazedo de Montenegro, em Trás-os-Montes. Sim, dissemos bem, o Manelito é uma leitora. Manelito, militante do CDS/PP, enviou-nos um e-mail em que dava conta do seu total repúdio ao tipo de piadas que aqui foram lançadas no último dia acerca das diversas figuras do Dr. Paulo Portas. Segundo esta leitora, as piadas são ofensivas e imorais, para além de atentarem contra a honra do Estado, e, em última análise, contra um nobre cidadão no pleno exercício dos seus direitos fundamentais, eleito democraticamente.
Queremos dizer à nossa leitora que não foi de modo algum intenção desta bloga ofender essa personagem mistério que é Paulo Portas, até porque só nos prestamos a ofender personagens de carne e osso e não bonecos de banda desenhada. Contra o Dr. Paulo Portas apenas a nos resta a indignação relativa à dívida que o agora Ministro da Defesa tem ainda para com os cidadãos do município de Lisboa, quando em tempo de autárquicas disse que, caso fosse eleito para o município, não iria abandonar a Câmara e que cumpriria o seu mandato até ao fim. Para ir até ao fim, precisaria de ter começado, é inequívoco...
Aí fica então o comentário que irritou o Manelito:
Por sua vez, uma vítima não identificada, publicitário brasileiro de 45 anos de idade, afirmou que não se importaria nada de ter Paulo Portas dentro de si, mas confirmou-nos que sinceramente já anda farto de promessas de Mário Soares não cumpridas: “É tudo uma treta; se Paulo Portas fosse mesmo um tumor, a minha próstata estaria na primeira fila a implorar: infecta-me!!!”


 
Calamidade pública
Hoje ao acordar tive presente a real tragédia que se abateu sobre o meu país. Não estou a reportar-me aos incêndios que grassam por este Portugal fora, refiro-me sim ao facto do genial Hélder Reis ter sido promovido a apresentador do programa Praça da Alegria. Há quem esteja a procurar abafar o passado negro desta jovem promessa da televisão portuguesa. Ao invés, nós procuramos recordá-lo, para que situações como esta não se repitam. Agora que o mal está feito, o importante é apostar na prevenção. Porque acreditamos que esta ainda não é uma geração perdida.

Hélder, já anteriormente referenciado nesta bloga pelos seus atributos de repórter, era até há alguns meses tão somente o empregado de mesa do programa. A sua ascensão meteórica levou-o a assumir-se como uma Madonna à portuguesa, surgindo hoje nos ecrãs da RTP1 ao lado da prenhe Sónia Araújo no papel de apresentador principal da Praça da Alegria. É esperado que esta atrocidade contra os direitos dos telespectadores deva manter-se pelo menos enquanto Jorge Gabriel estiver de férias. A figura triste e enfadonha de Jorge Gabriel é, neste caso, um mal menor. E conhecidos que são os estranhos critérios de avaliação que vigoram nas direcções de programas das nossas estações televisivas, é natural que, fruto do desempenho evidenciado na Praça da Alegria, na próxima grelha da RTP já Hélder Reis venha a ser contemplado com o seu próprio programa. Temos esperança que antes disso Portugal já tenha sido dizimado pela pneumonia atípica...

Antevimos que o pior pudesse suceder. Já antes havíamos visto esta história repetir-se inúmeras vezes. Advertimos. Ninguém nos deu ouvidos. Agora aguentem-se. Se John Kennedy, John Lennon, Cândida Branca Flôr foram vítimas de atentados contra as suas vidas, porque é que Cláudio Ramos ainda permanece vivo? Estamos em crer que qualquer magistrado no seu perfeito juízo iria absolver quem proporcionasse um bem destes à sociedade, e que essa decisão criaria jurisprudência, evitando assim que futuros casos, como é o deste Hélder Reis, ameaçassem a harmonia social em que procuramos viver.

Outra das coisas que muita confusão me faz é que, tal como os jogadores de futebol subitamente transformados em treinadores, também os assistentes de estúdio que se vêem transformados em apresentadores, de um momento para o outro, como por artes de magia, ganham um apelido: deixam de ser vegetais a passam a ser gente. Como se o nome de família saltasse de dentro da cartola do mágico. Como se o nome de família fosse um sete de copas. Eurico passa a ser Eurico Gomes, Diamantino passa a ser Diamantino Miranda, Inácio passa a ser Augusto Inácio. Hélder passa a ser Hélder Reis. Como se de repente se vissem dotados de um cérebro para pensar, mais do que apenas da capacidade para entender as ordens que lhes são veiculadas.

A estreia do jovem Hélder foi auspiciosa. É óbvio que a exposição prolongada aos efeitos de Hélder Reis poderia atentar contra a nossa sanidade mental, e preferimos assim não nos deter muito na performance do novel apresentador da Praça da Alegria. Daquilo que pudemos testemunhar, a presença de todos os trejeitos da escola Júlio Isidro era evidente: blazer azul marinheiro a desdizer as indicações de que lá fora estes dias são de canícula, a pose da perna traçada, e duas ou três piadoscas inevitáveis para manter elevados os níveis de audiência nas mentes mais básicas, ainda habituadas ao trocadilho simples e directo de Manuel Luís Goucha.

Atingimos, digamos assim, o fundo da poça. Deixámo-nos, como espectadores, consumidores ávidos de programas matinais, cair na lama, permitimo-nos à ofensa de acatar, como se nada fosse, opções ultrajantes como a apresentação dos programas matinais da nossa televisão entregue aos cuidados de Sónia Araújo e Hélder Reis (Praça da Alegria), José Figueiras (SIC 10 Horas), e Teresa Guilherme (Olá, Portugal!). Será possível descer mais baixo do que isto?


 
As evidentes afinidades entre Niki Lauda e Pedrito de Portugal
O espertíssimo leitor estará agora a perguntar para os seus botões, mas que raio de relação existe entre afinal Pedrito de Portugal e Niki Lauda. Nós desmentimos que se trate de algum relacionamento anti-natural condenado pelas instâncias católicas, apesar da aparência mimalha e delicada que nos chega do melhor especialista português em abreviaturas (Pedrito de Portugal assume que a razão de ser da sua profissão é altruísta: abreviar; abreviar o sofrimento dos animais.)
Niki Lauda sobreviveu a um violento incidente de Fórmula 1, no qual que se viu imolado pelo fogo, sofrendo como consequência problemas respiratórios graves e queimaduras por todo o rosto. O seu sofrimento não foi, no entanto, abreviado. Já Pedrito de Portugal foi recentemente condenado pelo Tribunal da Moita ao pagamento de uma multa no valor de 100 mil euros, pela morte de um touro em arena.
Cada um à sua maneira, tanto Niki como Pedrito ficaram com as orelhas a arder...


 
Estamos a orar para que fiques melhor
A vasta equipa d’Os Crimes do Padre Amaro (Padre Amaro e sua cadela) solidariza-se com uma das suas mais fiéis leitoras, aproveitando para desejar publicamente que essa dor se evada ao estilo veloz e desembaraçado de uma Fátima Felgueiras, e que o desejado restabelecimento seja tão rápido quanto a propagação de um incêndio na Serra de São Mamede. Por ti, leitora, vamos até onde for preciso...


 
As evidentes afinidades entre Paulo Portas e Niki Lauda
Para entender a abrangência desta questão devemos pôr de lado quaisquer instintos maldosos e saber distinguir as figuras do Paulo Portas político, Paulo Portas jornalista, e Paulo Portas tumor. É o Paulo Portas tumor que está aqui em causa. Aclarados que estamos sobre este pressuposto, esgalhemos então em direcção à matéria que nos interessa.
Costumo assistir às transmissões dos grandes prémios do Mundial de Fórmula 1 através da cadeia de televisão alemã RTL. Poupo-me assim aos comentários estrábicos dos comentadores da RTP1, tenho oportunidade de assistir ao que sucede nos bastidores da corrida, e – é esta a razão essencial - posso recordar essa ciclópica figura do meu imaginário que é Niki Lauda.
Agora comentador da RTL, o tricampeão mundial austríaco brilhou na Fórmula 1 nas décadas de 70 e 80, e sempre foi a loucura das meninas que o viam abordar cada recta como se fosse uma curva, e cada curva como se fosse uma recta. Foi precisamente à custa desse tipo de condução arriscada que Niki Lauda entrou para a história, deixando no nosso país incondicionais seguidores que o recordam com quem venera com um sorriso nos lábios o desrespeito ao traço contínuo numa curva do Marão seguida de contracurva.
O delírio das meninas da Fórmula 1 estendia-se até ao momento em que o corredor chegava às boxes no final da corrida e insistia em não tirar o capacete (isto é rigorosamente verdade.) Toda a gente se inquietava sobre as razões que levavam Niki Lauda a permanecer de capacete posto, mesmo alguns minutos depois do fim da corrida. Se existissem jovens da Casa Pia nas boxes dos grandes prémios, poderíamos, à distância de 20 anos, encontrar um bom motivo para este comportamento estranho. Mas não vamos entrar por aí...
O mistério do capacete foi um dos muitos mistérios de Niki Lauda que sempre ficaram por resolver, e que deu inclusive origem a alguns mitos maldosos, como aquele que dizia que Niki Lauda se envergonhava em tirar o capacete porque tinha as suas feições desfiguradas (nunca acreditei muito nesta teoria.)
Há pouco, no final do Grande Prémio da Alemanha, olhei atentamente a figura de Niki Lauda, e pude confirmar que eram evidentes as semelhanças entre o antigo corredor de Fórmula 1 e o actual Ministro da Defesa de Portugal, Paulo Portas. À parte o século e meio de idade que os separa, em tudo o resto as semelhanças são por demais evidentes: o boné que protege a cabeça de Niki Lauda é o mesmo que o Paulo Portas político usava nas suas visitas às feiras; Niki Lauda em frente às câmaras ou fora delas exibe a mesmíssima cara de pau com que o Paulo Portas jornalista assinava as primeiras páginas d’O Independente; e, finalmente, pus-me a pensar se Niki Lauda não é uma antevisão aterradora daquilo que poderá vir a ser o Paulo Portas tumor se não for extirpado em devido tempo.
E há ainda outra coisa em comum: é que ambos gostam de automóveis de grande cilindrada.


domingo, agosto 03, 2003
 
Uma anedotazinha de muito bom gosto
- Tenho uma má notícia para te contar...
- Então...
- Fui ontem ao médico e ele diagnosticou-me um tumor no cérebro.
- É maligno?
- Não, é Paulo Portas!
- Tchiii!!!...


 
Mário Soares insulta vítimas de tumor em Portugal (ao comparar a sua doença com Paulo Portas)
Os tumores portugueses estão revoltados. Esta acrimónia resulta da comparação feita por Mário Soares (o Extirpador do Grande Oriente Lusitano, Ordem do Avental), de que o Ministro Paulo Portas seria um tumor no elenco governamental e que os tumores têm de ser extirpados, ou seja, demitidos.
Os tumores portugueses fizeram já saber ao marido da perpétua presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, entretanto extirpada do seu cargo, que a classe dos carcinomas sempre se pautou por ser uma classe digna e honrada, e que não agrega nas suas fileiras qualquer tipo de político ou filho de político sem virtude. A reacção dos melanomas prossegue: “Está bem que podemos não ser lá grande coisa, mas daí a quererem comparar-nos com a classe política...” E o tumor deita-nos a língua de fora ao falar na classe política...
Por sua vez, uma vítima não identificada, publicitário de 45 anos de idade, afirmou que não se importaria nada de ter Paulo Portas dentro de si, mas confirmou-nos que sinceramente já anda farto de promessas de Mário Soares não cumpridas: “É tudo uma treta; se Paulo Portas fosse mesmo um tumor, a minha próstata estaria na primeira fila a implorar: infecta-me!!!”


sábado, agosto 02, 2003
 
Código Deontológico dos Políticos
É importante reflectir também sobre a necessidade urgente de conceber um código de conduta para políticos profissionais.


 
Código Deontológico dos Jornalistas
7. 0 jornalista deve salvaguardar a presunção de inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado. O jornalista não deve identificar, directa ou indirectamente, as vítimas de crimes sexuais e os delinquentes menores de idade, assim como deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor.
Para que existe um Código Deontológico dos Jornalistas se ele é vítima de atropelos constantes, desrespeitado, esquecido? Bastará olhar para as abordagens feitas aos recentes casos de pedofilia registados em Portugal, ou aos casos de tragédias como a de Entre-os-Rios ou dos incêndios. Ainda ontem assisti a uma triste reportagem, em que uma criança gritava por socorro e chorava compulsivamente ao assistir à fúria das chamas que avançavam sobre sua casa, ao mesmo tempo que era insistentemente perseguida por jornalista e repórter de imagem. Isto é jornalismo sério? (Em complemento fica a referência à bloga Guerra e Pás, que nos deixa boas pistas para uma discussão acerca do estado dos media em Portugal.)