Os Crimes do Padre Amaro

fragmentos da vida de um monge ateu

mail do padre
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quinta-feira, julho 31, 2003
 
Escuta 1383, Alvo 23452
Bem vindo ao serviço automático de triagem de escutas da PJ para o Alvo 23452. Se o assunto a tratar é da esfera pública, prima a tecla... 1; se é da espera privada, prima a tecla... 2; se é da esfera íntima, prima a tecla... 3.

Está lá!?
Estou, daqui fala o Alvo 23452, faz favor de dizer.
Boa tarde, acha que podemos falar agora, sô’tor?
Eh pá, eu agora encontro-me na viatura pá, estou desejoso de chegar a casa e tomar um banho, esta coisa da tolerância zero aqui no IP5 foi a medida mais retrógrada e reaccionária deste governo...
Mas ó doutor, foi o governo PS que instituiu a medida da tolerância zero no IP5...
Que fique claro que eu nunca tentei renunciar ao meu passado como integrante desse governo, mas que fique ainda mais claro que eu sempre me insurgi contra esta medida que considero (imperceptível)...
Pois!
Olha, aguenta aí um bocadinho que está aqui um gajo a dançar com uma raquete de pingue-pongue no meio da estrada... sai lá da frente, ó camarada!!!... (imperceptível) chiça, g’anda maluco, por pouco não conseguia acertar-lhe pá. Isto ainda é melhor do que jogar ao Carmaggedon!... bom, mas diga lá...
Sô’tor, deixe que me apresente, daqui fala a cozinheira do P.R., queríamos saber se o senhor afinal sempre aparece cá em casa para jantar logo à noite...
Claro que apareço, pá. Porque é que, pá, não havia de ir aí jantar, pá? Por acaso tenho cara de quem se fica bem só com umas criancinhas ao pequeno almoço, é!?
É que estão a dizer no telejornal que o senhor está neste momento a ser alvo de uma perseguição policial na autoestrada, e que o querem levar para interrogatório...
Oh diabo, tu queres lá ver que estes gajos voltaram a pôr o meu telefone sob escuta!... Anda lá com essa lata, ó camelo, que eu estou com pressa!!! Que c... um gajo tem o P.R. à nossa espera e estes tipos ainda se põem com m... sacana do emigrante...
Pois!
Espere só um minutinho que eu vou ter de encostar a viatura aqui à berma.
Pois!
Tenho aqui no vidro da frente um pedaço do tipo da raquete a estrebuchar qualquer coisa como: ‘os documentos da viatura, por favor; os nossos radares indicavam que o sôr passou lá atrás a uma velocidade de 190 km/h, o sôr não sabe que não pode circular a mais de 90 quilómetros horários nesta via?’ Oh pá, eu quero lá saber...
Pois!
Isto já saiu uma vez na primeira página de um semanário, o povo está farto de saber que eu sou um acelera, um adepto da Playstation. Além disso, o P.R. é o P.R., e não se faz esperar um P.R.!... Espere lá, ó senhora, disse-me que era cozinheira do P.R. do P.G.R., ou do P.R.D.?
Pois! Estamos a pensar fazer frango com miudezas, não sei se o senhor gosta.
Olhe pá, deixe ficar só as miudezas que o frango a mim faz azia.
Pois, aquela história do guarda-redes Ricardo, de dizer que não há nada melhor do que um bom frango...
Não, fiquei com azia a frango desde que o Schmeichel veio jogar para Alvalade. Desde aí nunca mais pude ver um frango à minha frente.
Pois!
Pois, pois, pois!!! Você parece o Luís Figo quando vem a Portugal para os jogos da Selecção; não sabe dizer outra coisa senão ‘pois’?
Ó Sô’tor, pois, foi o que a gente tinha combinado, não se lembra!? Pois que íamos preencher a conversa com ‘pois’ e ‘pás’ para dar um ar mais verosímil ao telefonema...
Pois... ehh.. sim... bom, espero que ponham o rótulo de imperceptível nesta parte da conversa...
Mas, ó sô’tor, quando é que isto sai?...
Oh pá, não sei, deve sair mesmo a tempo a silly season lá para fins de Julho. Vai cair que nem ginjas, libertamos o P.P., conseguimos lixar a vida ao J.R.T. e descredibilzamos ainda mais o sistema judicial português...
Espere lá, eu não tenho a certeza se liguei para o número certo... Quem é que me disse que falava?
Daqui é o Alvo 23452.
Ah, então estou enganada... eu queria falar era com o Alvo 23453, é que esse também vem cá jantar hoje e temos de lhe preparar uma refeição de dieta!


 
Armas inteligentes
Foi encontrada uma nova arma contra os assassinos do volante. É a Bernardelli calibre 7,65 - 9 curto. Pesa só 725 gramas...

Foi encontrada uma nova arma contra os incendiários do nosso país. Carlos Silvino, Bibi para os amigos.


quarta-feira, julho 30, 2003
 
O último dos Carochas
O mítico carro da Volkswagen deixou 'finalmente' de ser fabricado. Carocha, Fusca, Beetle, Käfer, Coccinelle, Maggiolino, Escarabacho, ao todo foram 21 milhões de exemplares produzidos ao longo de praticamente 70 anos de história. O último estertor do Carocha ouviu-se na linha de montagem de uma fábrica em Puebla, no México, país onde o modelo goza de uma popularidade quase divina.
É um momento que não posso deixar de assinalar. Este foi o carro da minha primeira infância. Foi este o primeiro automóvel no qual entrei, nele fui conduzido desde a maternidade até casa, dentro dele me cresceram os primeiros dentinhos. Transporto-o nos genes, não sei o que é que os meus pais fizeram nele antes de eu nascer. Era o carro com que eu sonhava, era o carro que eu desejava ter quando fosse grande. Agora sou grande, mas nunca tive um Carocha. Agora acabou!


terça-feira, julho 29, 2003
 
Todos cá vêm, mas poucos são os gloriosos que ficam
Já batemos o recorde de visitas. Ao longo do dia de hoje, até às 23:10, Os Crimes do Padre Amaro havia registado um total de 60 visitas, o que configura um novo máximo diário. Este valor ultrapassa as 48 visitas registadas durante o dia 20 de Julho, um Domingo em que a discussão por aqui andava à volta da dimensão do papel higiénico.
Agradecemos o dilúvio de visitas; respectivamente, ao meu pai, à minha mãe, ao meu primo Levi, ao meu tio Olavo, ao meu vizinho e a todos os seus catorze filhos, à minha cadela, aos amantes da minha cadela, aos filhos bastardos da minha cadela, ao Carlos Castro, a todos os amigos do Carlos Castro que não sejam heterossexuais, aos três amigos do Carlos Castro que não são homossexuais, aos amigos do Carlos Castro que estão ainda indecisos, à Lara Li, aos amigos do Carlos Castro que gostariam de lhe deitar arsénico no chá, aos amigos do Carlos Castro capazes do mais protésico sorriso amarelo quando lêem aquilo que CC escreve sobre eles, à Irmã Lúcia, às monjas adoradoras escravas de Deus e-tudo-e-tudo-e-tudo, a todos os fãs de José Cid em Portugal, e, finalmente, um agradecimento muito especial à minha mulher a dias, que se entreteve durante toda a noite a entrar e a sair da bloga apenas para contabilizar as visitas necessárias ao aumento de ordenado que eu lhe havia prometido.
A todos, pelo estímulo, muito obrigado!


 
5,4 na escala de Richter
Confirma-se. É um sismo de magnitude 5,4 da escala de Richter, com epicentro a 150 km a Sudoeste do Cabo de São Vicente. Foi sentido desde Caldas da Rainha até ao Algarve. Aparentemente, e tirando o susto provocado, não terá sido um sismo com grandes consequências. No dia de ontem, um outro abalo havia sido sentido em Miranda do Douro.
Tenho quase a certeza de que os videntes Zanfir ou Graciete previram para este ano em Portugal intensa actividade sísmica. Ora, estes dois abalos já devem bastar para dar razão a todos os sábios que nos invadem os lares entre Dezembro e Janeiro. É a minha opinião que temos de saber dar ouvidos a esta gente.


 
Portugal com Parkinson
A realidade em directo. Lisboa acabou de ser atingida há poucos minutos por um abalo sísmico. Nós estávamos lá. E sentimos. Para lhe contar tudo. Em primeira mão. O chão fugiu dos nossos pés, nós fomos atrás dele e conseguimos apanhá-lo. Ainda julgámos tratar-se do efeito dos comprimidos, até fitarmos o monitor e ele nos confirmar em abanicos que se tratava na realidade de um terramoto. Informações recentes dão conta que o sismo se fez sentir de Lisboa ao Algarve.
Portugal acorda a tremer.


segunda-feira, julho 28, 2003
 
A traição de Ediberto Lima
Recebemos aqui no templo duas notícias que importam partilhar com o caro leitor. Uma delas deixa-nos extasiados de contentamento. A outra deixa-nos apreensivos e promete deprimir a alma lusa. Vamos começar pela boa notícia.
Ediberto Lima vai abandonar Portugal. O produtor brasileiro, pioneiro no nosso país do fenómeno da televisão em movimento, vai mudar-se de ares. O homem que deu prejuízo aos salões de cabeleireiro deste país por ter ditado moda no que respeita a penteado desgrenhado e besuntão vai iniciar a sua aventura por terras árabes. São muitos os projectos que estão na trunfa untuosa deste brasileiro de castas nobres: um Bar do Harém, uma Roda dos Milhões de Suicidas, um Big Show Jazeera. Esta é, declaradamente, uma boa notícia.
A má notícia é que Ediberto promete voltar daqui a dois anos.


 
The Crimes of the Priest I land on water
Um notável dicionário da língua inglesa repousa sobre uma das estantes contíguas à secretária de onde vos escrevinho. O Macmillan English Dictionary, que aconselho vivamente ao Mário Augusto quando houver que se deslocar a Los Angeles para entrevista a alguma personagem de Hollywood... Vem este comentário a propósito do exercício de tradução, essa ciência tão cara a uma das bombas mais inteligentes no mundo das blogas. Sabemos que a internet é uma rede que ultrapassa linhas de fronteira, credos, línguas. E, desse modo, é possível que um japonês visite a nossa bloga, como é possível ao Padre Amaro deliciar-se com a prosa desembaraçada da bloga de um japonês. É claro que o desconhecimento da língua é uma barreira a transpor. É para isso que existem, espalhados pela rede, os serviços de tradução automática.
Soubemos, através dos nossos serviços de espionagem, que um visitante forasteiro solicitou um desses serviços para tradução do conteúdo desta humilde bloga. A versão traduzida de Os Crimes do Padre Amaro pelo serviço Google deixou-nos orgulhosos. Nunca pensámos escrever tão bem em Inglês, e com tanta piada...
Só à laia de curiosidade científica.

“The possible news article for an impossible reporter:
1º World-wide Festival of Parrots started today in Coimbra and goes to elapse up to 27 of July. The program Square of the Joy of the RTP1 detached one of its ranhosos and at the same time risonhos reporters to make the journalistic covering of the event. The result was not less of the one than what it would be to wait: uncommon. Now promoted the Helder reporter , former-employed of table of the esplanade of the program, it dimmed any parrot that esvoaçasse together to the Pavilion Center of Portugal (the pavilion of Portugal in the Universal Fair of Hannover, now transferred part for part to the right edge of the Mondego.)
Here they are some of the most opportune questions left for the employee of table to some of the children who nothing had made to be apoquentadas for that Cláudio future Branches, and that they were only dedicated to the innocent construction of parrots:
- Olá?
- ‘Tás bom/boa?
- How it is that you call yourself?
- This is your first parrot?
- Of many that already you made, it had some that had not flied?
- When you look at for a parrot you remember what!?
- You are emocionado/a?
- Has a long tail your parrot? (...) When I new age, the tails of the parrots that we made served to destroy the other parrots... Times!”


(N. do T. Square of the Joy: Praça da Alegria; Cláudio future Branches: futuro Cláudio Ramos)


 
Bomba Inteligente na televisão
Há já dois ou três dias que ando a ler aqui e além que a Charlotte foi entrevistada para a RTP. Tudo bem, assumimos, a revelação tem-nos deixado pregados ao ecrã. Não tanto pela curiosidade em filar a visagem de Charlotte, mas mais para depreender que reflexões faz a ‘sociedade civil’ em relação a estas aves raras que constróem ninho na blogosfera. A peça haveria de ser exibida num dos programas de informação da televisão pública, eventualmente naquele espaço imediatamente a seguir à previsão do estado do tempo (quando o pivot já está de pé, a ver quando é que aquilo acaba para finalmente poder ir jantar), o que até à data ainda não se verificou. Do episódio, apenas se extrai uma conclusão: é que, com o nosso share, teremos feito aumentar o preço da publicidade no espaço da antena da televisão pública, o que significa que estamos, nós próprios, a cumprir um serviço público. Mas da Bomba Inteligente, nem um ocaso. É claro que a palavra de Charlotte não está em questão, todos acreditamos que foi abordada por uma equipa da RTP. O que aventamos é se a entrevista em causa seria para o Telejornal, ou para algum programa de Apanhados.


domingo, julho 27, 2003
 
Cães para abate III
Não se pode dizer que a tarde de Domingo não tenha sido proveitosa. A RTP1 continua a assarapantar-nos com novos capítulos da história surreal da televisão portuguesa. O episódio de hoje descreve-se como sendo uma não-história, porque o destaque foi nada ter acontecido; nada do que estava previsto.
O duo musical Vamp, duas louras de voz robusta e voluptuosa, foi convidado para uma actuação no intrépido programa Domingo é Domingo. As Vamp prometiam, por meio de uma actuação que se previa lânguida, aquecer um público ávido de despertar deste infeliz bucolismo domingueiro. O público aquietava-se na espera, as duas cantoras haviam já invadido o plateau com o seu esplendor somítico, perdão, somático. Ricardo Carriço expeliu todo aquele charme que o caracteriza e agradeceu em tom apreensivo a presença no programa, informando de que, infelizmente, e fundamentado em irremediáveis problemas de cariz técnico, o pagode das duas louras teria de ficar adiado e a actuação cancelada. Assim! As duas louras abandonaram o estúdio quedas, mudas, e com a mesma fúria com que haviam entrado.
Para quem ainda tinha dúvidas que a RTP não tem bons programas de humor...


 
Cães para abate II
Deixamos uma sugestão para o programa Domingo é Domingo. Um telespectador interessado em adoptar o Ricardo Carriço.


 
Cães para abate I
O programa Domingo é Domingo oferece aos telespectadores a oportunidade de adoptar alguns cães que estão para abate em canis municipais. Consta que a audiência do programa tem subido exponencialmente no grupo de proprietários de restaurantes chineses.


 
O discurso directo na composição narrativa
Em dúvida as questões da forma que comandam alguns escritores a optar pelo recurso ao diálogo na composição narrativa. Trata-se aqui de questões de estilo, é certo. E essas são pessoais e criteriosas. Como tudo o resto. O ponto que quero sugerir é o abusado recurso de alguns escritores a esta disposição. Se por um lado é certo que o diálogo pode conferir mais ritmo à prosa, contribuir para a saliência do “efeito do real” a que se referia Roland Barthes, por outro parece-me que a busca da expressão da personagem contribui para o apagamento daquela entidade superior a quem o leitor se amiga, timoneiro que confere sentido à existência do narratário. Se todos os romances fossem dominados pelo diálogo, pelo recurso ao discurso directo, mais sentido faria devotarmo-nos à leitura de peças de teatro, em que o narrador se vê substituído pelo efeito de didascálias e indicações cénicas. O recurso abusivo ao diálogo na obra literária, em minha opinião, deixa de fazer sentido, assim como a obra teatral sem diálogo e com a serventia excessiva de indicações cénicas pode também não encontrar sentido, num contexto em que cada vez mais a palavra, a língua, traduzem um poder. Mas estas são, claro está, uma opinião e sensibilidade pessoais, baseadas em gostos formatados por aquilo que a paisagem cultural do país me foi oferecendo. Este tumulto que me assomou ao espírito aconteceu pela minha incapacidade ou falta de interesse em seleccionar para leitura livros cuja mancha de texto se deixe dominar durante páginas a fio pelo travessão seguido da linha de diálogo.

No início deste fim-de-semana, a escolha de um livro conduziu-me velozmente à prateleira. O meu cérebro é bibliotecário. Gosto de manusear os livros antes de os ler, sentir-lhes o cheiro, o peso, a textura das folhas, a dimensão e a forma dos tipos impressos, a mancha do texto. Observa-se o número de páginas, lêem-se passagens, afere-se o estilo, o tema, a composição lexical. Cria-se a intimidade. Ou antipatia. Alimenta-se o nosso juízo. No início deste fim-de-semana, a escolha de um livro conduziu-me velozmente à prateleira. Soltei o meu bicho escala estantes, e lembrei-me do outro:

(O Bicho Escala Estantes assume-se como uma bloga “acerca do sacerdócio livreiro”. Entendo que, mais do que uma bloga, o Bicho Escala Estantes é um serviço público que devemos conservar na nossa mesa de cabeceira.
No já remoto mês de Maio, Vincent Bengelsdorf, da bloga Bicho Escala Estantes, refere-se a O Som e a Fúria de William Faulkner como “o melhor livro de sempre a seguir à Bíblia”. Não ousamos discordar, dadas a reconhecida autoridade de Vincent em matéria de estantes e o nosso desconhecimento da obra. Refere-se no mesmo aposto a um terceiro lavor como digno de figurar nesta tríade de obras de referência: Margarita e o Mestre, do russo Mikhail Bulgakov. )

Pegamos n’O Som e a Fúria, obra que sabemos de referência, capaz de nos fazer despir os trajes da inocência, obra com que coabitamos desde que nos entrou pela casa adentro no seu ar conspícuo comprimindo-se na estante, com livros que nada lhe dizem. Bem próximo, um livro com o qual já fizemos amor, noites a fio, Margarita e o Mestre de Bulgakov. O Som e a Fúria e Margarita e o Mestre abrem-se sobre as minhas mãos. Estas guerras vêm já de tempos remotos. O bosque de narrativa de O Som e a Fúria de Faulkner entremeia-se com as alusões recorrentes ao discurso directo. Adormeço numa distracção congénita. Da estante, salta As Horas de Michael Cunningham. Fica a promessa de ler, num destes invernos, O Som e a Fúria.


 
Os Crimes do Padre Amaro distinguida
A obrigação de noticiar em causa própria estrafega-me num dilema próprio dos grandes esquizofrénicos da blogolândia. Por momentos de escrita vejo-me compelido a despir a batina e encarnar o pulso de outra personagem. No horizonte está ainda o caminho para alcançar o cume dessa santa objectividade na qual sempre procuro alimentar as minhas elegias diárias.
À ideia, procurando despir a batina e encarnar outra personagem, emergem semblantes tão diversos como o vendedor de rosas do Parque das Nações, a bruxa do comboio fantasma da Feira Popular, ou o desvirginador de ovelhas.
“Vamos a bolas”, decide a minha cadela. “Se sair a bola branca, encarnas a personagem vendedor de rosas do Parque das Nações; se sair a bola preta, vais tomar a forma da bruxa do comboio fantasma da Feira Popular; e se não sair bola absolutamente nenhuma, hipótese embora remota sempre possível (vê-me só o caso do Carlos Cruz; qual era o guarda prisional que há um par de anos dava alguma coisa por aquela carninha?...)”
Se não sair bola nenhuma, devolvo eu?
Ela responde-me, já de espírito ausente, enquanto enrosca uma mortalha: “man, tu às vezes revelas ter o intelecto de uma pevide! Se não sair bola nenhuma, encarnas o papel do pastor desvirginador de ovelhas e ficas calado, percebeste!?” (E que ninguém procure neste pastor desvirginador qualquer conotação beatífica, porque é coisa que nunca ocorreria à mente incorruptível da minha cadela, ainda casta ao fim de 10 anos; não tanto quanto eu, que permaneço por inaugurar há... onde é que deixei o papel com os cálculos?)

Bom, mas deixemo-nos de conversa de empacotar cristais e vamos lá então arrepanhar a bola do saco. A minha cadela sai-se então com outro comentário sábio e que não me coíbo de reproduzir: “quem de duas tira uma, fica com uma.” Neste caso consideração desacertada, porque quem de duas tira uma, fica com as mesmas duas, caros leitores, isto porque a bola que saiu foi precisamente... nenhuma. E assim, com muita pena minha, terei de encarnar a personagem do pastor desvirginador de ovelhas.

Afastado que estou então do risco de noticiar em causa própria, posso agora anunciar, com toda a objectividade reconhecida aos pastores desvirginadores de ovelhas, que a bloga Os Crimes do Padre Amaro foi distinguida como uma dos 10 melhores da esfera lusa numa apreciação de umblogsobrekleist.
A encabeçar a lista aparece A Carta Roubada, seguida por Thomaz vs Cunhal (12,2 rounds) e pela bloga Vastulec. Os Crimes do Padre Amaro surpreendem na sétima posição desta lista.
O autor da bloga, e homem com baixo ventre suficiente para deixar do lado de fora da lista de blogas aqueles que são ensaboados pelos media, salienta na sua apreciação que algumas das blogas distinguidas lhe originaram “dolorosos extremos de auto-recriminação, por não ter sido capaz de se lembrar delas antes.”
Esta bloga, umblogsobrekleist, tem um fundo verde e fontes de cor azul e também preta. São de destacar as imagens que vão polvilhando a pantalha e ilustrando o texto, que é de boa qualidade, bem estruturado, com vírgulas no sítio e sem erros ortográficos. Umblogsobrekleist foi distinguida por Charlotte como “a melhor da blogosfera”, em artigo garatujado para a revista “Os Meus Livros”.
Só deslindamos nesta bloga um problema: é que não existem ovelhas virgens apascentando no fundo verdejante de umblogsobrekleist...


 
Reformulação gráfica
Depois de aturadas pesquisas feitas em inúmeras revistas da especialidade (blog templates), depois de um trabalho de monta que invisível ao caro visitante, apraz-nos apresentar com todas as formalidades o novíssimo aspecto gráfico da bloga Os Crimes do Padre Amaro.
Refeito que está o embrulho, prometemos dedicar-nos agora aficadamente ao conteúdo. O nosso lema é, agora e sempre:
"servir bem e bem servir, dá saúde e faz tossir"


sábado, julho 26, 2003
 
Quem é que, nos atropelos da fúria matinal, nunca caiu no equívoco de vestir umas cuecas do avesso? Eu já. Mas preocupam-me muito mais aquelas manhãs em que o meu corpo do avesso se deixa vestir por umas cuecas. É que isso acontece muitas vezes...


 
Estamos a testar e a trabalhar num novo template, para o servir melhor. Perdoem-nos eventuais contratempos. Obrigado pela sua escolha inteligente.


quinta-feira, julho 24, 2003
 
A reportagem possível para um repórter impossível:
O 1º Festival Mundial de Papagaios começou hoje em Coimbra e vai decorrer até 27 de Julho. O programa Praça da Alegria da RTP1 destacou um dos seus mais ranhosos e ao mesmo tempo risonhos repórteres para fazer a cobertura jornalística do evento. O resultado foi não menos do que aquilo que seria de esperar: insólito. O agora promovido a repórter Helder, ex-empregado de mesa da esplanada do programa, ofuscou qualquer papagaio que esvoaçasse junto ao Pavilhão Centro de Portugal (o pavilhão de Portugal na Feira Universal de Hannover, agora transferido peça por peça para a margem direita do Mondego.)
Aqui ficam algumas das mais oportunas questões deixadas pelo empregado de mesa a algumas das crianças que nada tinham feito para serem apoquentadas por aquele futuro Cláudio Ramos, e que apenas se dedicavam à inocente construção de papagaios:
- Olá?
- ‘Tás bom/boa?
- Como é que te chamas?
- Este é o teu primeiro papagaio?
- Dos muitos que já fizeste, houve algum que não tivesse voado?
- Quando olhas para um papagaio lembras-te de quê?
- Estás emocionado/a?
- Tem uma cauda comprida o teu papagaio? (...) Quando eu era mais novo, as caudas do papagaios que nós fazíamos serviam para destruirmos os outros papagaios... Tempos!


 
A raiz do medo: sou um sobrevivente. Digo-o com uma pontinha de tumefacção, aqui na esquerda baixa do maxilar! Voltando ao meu assunto: sou um sobrevivente. Ah, já leram! Okay, perdoem-me insistir nesse ponto. Faço-o porque de facto ainda me sinto totalmente vivo, tirando a falta de sensibilidade no canto inferior esquerdo do maxilar, fruto da anestesia, e este sabor esquisito na boca que parece sulfato de cobre (nunca provei sulfato de cobre, mas é esta a imagem que faço desse produto de tratamento do cultivo). Mas o que interessa é que sou um sobrevivente e agradeço aos deuses por ter escapado a mais esta experiência aterradora sem mazelas físicas e psicológicas de maior.
A cadeira do dentista foi um alívio. Na sala de espera o desespero apossava-se de mim, ao mesmo tempo que devaneios pútridos me deixavam com vontade de ler todas as Caras, Vipes, Novas Gentes que me desencaminhavam o olhar. A consulta estava marcada para as 15:30, mas só fui atendido quase às 16:30. Tive tempo suficiente para esperar o pior. É claro que entramos sempre com ideias de que não vai custar nada, mas a passagem pela sala de espera arruina qualquer tentativa de acalmia, e transporta-nos para as mais recônditas sentenças de agonia. E havia depois umas simpáticas velhinhas despejando em pranto as suas menos bem sucedidas experiências noutros dentistas, e que "quase ia desmaiando", "e a raiz" que não sei quê, que “até as entrenhas me saltarem”, e uma miúda que resolveu inesperadamente correr a maratona dentro da sala de espera... Isso sim, foi desesperante.


 
Referência ao blogue Desactualizado e Desinteressante
Quero deixar aqui uma referência ao blogue Desactualizado e Desinteressante. Esta menção não tem outro motivo que não o da simples referência a esse blogue.


 
No dia 30 de Dezembro de 2001, um dia antes de ser parida esta moeda que agora circula nas nossas carteiras, dirigi-me a uma Caixa Multibanco com o meu cartão MB da Caixa Geral de Depósitos. A intenção era levantar uma esmerada quantia desses já caducos Escudos. Era Domingo, as instituições bancárias estavam encerradas, e no dia seguinte, sendo o dia da transição da moeda e conhecendo-se a febre do povo português quando sente que lhe podem ir ao bolso, os bancos estariam apinhados de velhos birrentos (e novos também). Procedi correctamente, conforme sempre havia feito. Introduzi o cartão na ranhura... e quando esperava que a simpática caixa me solicitasse a digitação do código pessoal, qual não foi o meu espanto apercebendo-me que acabara de ser vítima de um furto. A caixa Multibanco acabara de furtar o meu cartão Multibanco. Não tinha errado na digitação do código, não era na altura nenhum criminoso em fuga a um mandato assinado pelo juiz Rui Teixeira, aparentemente o meu telefone não estaria sob escuta. É claro que não me deixei ficar. Olhei a máquina com desprezo, ameacei-a que lhe iria às trombas se ela não me devolvesse imediatamente o meu cartão, fiz-lhe o gesto da pilinha com o este meu dedo que um dia uma rebarbadora há-de talhar. Bem, fiz como o bom português, voltei para casa a chorar. O cartão já era...
Dois anos depois, hoje, 24 de Julho de 2003: recebo em casa uma carta da CGD, em que se dá conta do seguinte:
“Assunto: Devolução de cartão de débito capturado em rede multibanco.”
O mistério começa a esclarecer-se. O cartão não foi furtado, nem sequestrado, mas sim capturado. Como um guerrilheiro das forças fiéis ao regime. Capturado. E prossegue em hilare prosa:
“Junto devolvemos o cartão de débito de V.Exa. retido em ATM.”
Retido, aqui a captura é substituída por retenção. Isto à luz da Lei, o que configuraria, doutor (perguntaria Rui Vasco Neto nas suas Vidas Reais.) Já fico mais satisfeito. O meu cartãozinho ficou apenas retido. Tê-lo-ão tratado bem, alimentado, feito dele um homenzinho?! Terá o cartão ficado retido até hoje naquela precisa máquina à porta da agência onde me dirigi? É que se eu soubesse, eu próprio já teria encetado o resgate.
“Com os melhores cumprimentos.”
‘Tá bem, abelha!


quarta-feira, julho 23, 2003
 
Coito interrompido: saberá algum espírito mais avisado explicar-me que tipo de alusões de cariz metafórico nos revela a cena final da película Matrix Reloaded?... Gémeos siameses unidos pelo cérebro separados enquanto jovens deitados na marquesa?
Que cena, foi o primeiro filme da minha vida em que consegui tanto perder o início da fita, como ao mesmo tempo me senti um autêntico imbecil com o seu desfecho!!!...


 
Estamos a poucas horas do momento Dê...
...entista!



 
Isto na ditadura é que era! Em entrevista à SIC, o cappo da grei Soares, Mário, antigo presidente da república (e há quem insista, homem de renovado apetite para o cargo - conhecido na família como o Papa-Cargos), arremessou duras críticas contra o “precário” sistema judicial português.
Para este putativo futuro recandidato a Belém – ou até ao lugar de primeiro-pai da república, ou lá o que vier à rede – a situação que vivem os arguidos em prisão preventiva no nosso país é vergonhosa. (Vergonhosa é palavra nossa. Não temos no entanto qualquer problema em assumir a responsabilidade de opinar que é dessa forma que o ex-presidente avalia a situação.)
Soares recordou inclusive uma situação que viveu ainda no tempo da ditadura do Estado Novo quando, ao fim de 6 meses de detenção, Soares apresentou um pedido de habeas corpus que lhe foi concedido, sendo o então brigão anti-fascista libertado de imediato (“claro, para 4 ou 5 dias depois ser detido sob uma nova acusação e enviado para São Tomé”, recordou o velhinho mais adorado dos portugueses logo a seguir ao João Gil e ao Avô Cantigas.)
Soares nota que até no tempo da ditadura se cumpriam as formalidades.
Ai que saudades...
... do avozinho Soares!


terça-feira, julho 22, 2003
 
Amanhã é o dia D.
D de Dentista.


 
Ricardo no Sporting. O guarda-redes titular das redes da selecção nacional diz que o dia de ontem foi, logo depois do dia do nascimento do filho, o mais feliz da sua vida. É portanto um dia que merece ficar registado nas nossa agendas. 21 de Julho de 2003, dia mais feliz na vida do guarda-redes Ricardo.
Aguarda-se com ansiedade o comentário versado do escoliasta ludopédico Gabriel Alves: “Ricardo, 27 anos, 1 metro e 85, teve o dia mágico da sua vida em 21 de Julho de 2003, a técnica da forca contra a forca da técnica.”
Há pelo menos que confirmar o mérito: este é um guarda-redes que sabe reconhecer um bom frango. Por algum motivo o Sporting foi tão lesto em contratá-lo.


segunda-feira, julho 21, 2003
 
19 ligações de referência, 19
Partimos agora, avisados pela quantidade de novos e sempre fugidiços visitantes desta bloga, para uma enciclopédica recapitulação dos links até agora enunciados.
São parte dos apostos com que tenho marcado diariamente esta função. Muitas dessas ligações merecem ser recordadas; e visitadas:
Padre Frederico - um interessante artigo sobre o estado da Justiça em Portugal e sobre este evadido famoso em particular
Carlos Cruz - uma mini-biografia totalmente independente que considero indispensável para entender o fenómeno
A cabra da virtude - para entender porque é que a virtude é uma cabra
Leitores de raciocí­nio mais compassado - ligação ao blogdoromance, onde se desvela um legado de interessantes dicas não só para candidatos a leitores, mas também para eventuais aspiradores a escritores
Deus - ligação directa a Deus (dispensa chave na ignição)
Tomás Taveira - um homem que não se atemoriza com qualquer escândalo e ainda faz dele motivo de orgulho
Gisela do Masterplan - descobrimos um interessante artigo sobre esta novel personagem que vai aplicando autênticas chiquelinas aos directores das estações televisivas do nosso redondel
Os sete pecados do Padre Amaro - a escalpelizar brevemente nesta bloga. Para já, documente-se na interessante ligação que aqui deixamos
O pecado mora ao lado - até que ponto faz sentido o pecado nos dias que correm?
Pedro Miguel Ramos, Mão de Roto - um exame atento à palma da mão deste comunicador de referência
Mais concursos - o concurso mais estúpido até hoje engendrado (mais ainda do que a Mão de Roto)
Leitor - para melhor entender que para ler não basta fazer os olhos percorrer a macha de texto da esquerda para a direita. É preciso também obrigá-los a avançar de cima para baixo no final de cada linha
Remédio para a tosse - grageia logo pela manhã
José Cid - Prémio Anadia Biónica 2002
Liberdade de imprensa - Kumba Ialá e a suspensão das emissões da RTP África em Bissau
Mulher Não Entra - o programa de maior referência da televisão portuguesa nos últimos anos
Lobby Gay - Carlos Candal falou nele em 1996; desconfiamos que esta seja uma das células do famoso cartel
Lençol de Banho - ou toalha de banho? Bitaites linguí­sticos lançados de um lado para o outro do oceano
Papel Higiénico - um estudo bastante interessante (e sério) sobre a problemática do papel higiénico nos dias que correm. Descubra como a qualidade do papel higiénico que consome pode determinar o seu bem-estar diário.


 
Agradeço ao meu centésimo visitante (100º). Não vivo naquele fenómeno que podemos chamar a cisma da abundância, mas não evitei reparar que o contador de entradas deste blogue despretensioso ultrapassou as cem (100) visitas. Não cuido que seja este motivo de comemoração especial. Ousarei um regozijo quando souber que a este cantinho acorreu uma (1) pessoa estimulada pelo que por cá se lê. Até lá, limitar-me-ei a escrever, para mim, porque sou de mim o meu mais fiel leitor. Exercício narcisista, provavelmente onanista?
A autoridade impiedosa que o rigor vai concebendo diz que nesta esfera só os mais incautos poderão descuidar que é uma cortesia fugaz aquela que meneia os visitantes através do cada blogue. Poucos poderão assenhorar-se dos louros da conquista não só dos olhos, mas da atenção das pessoas. A oferta, essa, é um mar a perder de vista, como todos os mares com ondulação aqui, locais mais profundos além, e poluição intervalada por rochedos de qualidade. Também as há, balsas de salvamento; mais modestas, é certo, do que esses rochedos onde no topo se escondem imperscrutáveis tesouros de marear. Gente que galgou borda fora e que partiu em busca de porto firme.
A oferta é imensa, os blogues multiplicam-se em catadupas de sonhos intermináveis, ventos que vão e que vêm enquanto a febre for febre, enquanto o verão e a madrugada continuarem a ser lugares habitados.
Indago o que será disto quando a febre passar e o entusiasmo esmorecer numa qualquer outra vaga. Hoje partimos atrás dos JPP, do OMP, do FJV, da BI, do MEC. E amanhã, que pegadas trilharemos e a que sombra ousaremos acoitar-nos?


domingo, julho 20, 2003
 
A dimensão do papel higiénico
Uma questão que tem agitado o meu dia. Porque é que a linha de picotado dos rolos de papel higiénico está marcada a cada 13,5 cm de papel? Mal dos nossos pecados, atestei que cada pedaço de papel higiénico se amarfanha num torpe rectângulo de 10 por 13,5.
A questão a colocar é esta: haverá alguém que consiga limpar o cu a 135 centímetros quadrados de papel extra-fino?


 
Hoje é dia de homilia. Aceitam-se palpites sobre os temas que o professor irá hoje agasalhar na sua acroase domingueira aos pobres. Parecendo-me o professor um homem diligente da realidade que nos abraça - reparem como regressou já ao casaco claro -, estranho o facto do professor ainda não ter dedicado uma das suas notas finais à recente medrança do cosmos blogueiro (nomeadamente ao sucesso inquestionável d’O Meu Pipi, transversal a todas as classes socio-económicas.) Fica o meu pipi, aliás, a minha sugestão.
Nós sabemos que o professor é um leitor atento a esta coluna pseudo-opinativa. Bem haja, professor.


 
DOGMAS DA INDISPOSIÇÃO MATINAL, ORA BOLAS III: Francisco José Viegas e o seu Um Texto Longo, Sim no interessante blog Aviz:
Repito: está tudo tão à vista, aqui — os que contam as visitas e as page-views, os que não resistem a dizer que foram citados. Mas há os outros, sim: os que escrevem — e pronto. Os que dizem o que querem dizer. Os que se estão nas tintas. Os que têm uma palavra que não nega que gostava de ser lida? É isso um pecado assim tão criticável, tão menosprezável? Quando é que as pessoas escrevem — e pronto? Quando é que passam a escrever o que querem mesmo dizer, escondendo aquilo que acham que é para manter escondido, e não estão com muitas justificações, lapsos, vulgaridades, paralaxes?
Há nos blogs uma fragilidade muito evidente: são coisas que se escrevem porque sim, porque apetece naquele momento, porque nos lembramos, porque alguém falou disso, porque a ventania vem do lado do mar, porque o pó se levantou no meio do deserto em frases curtas, em textos longos, ou porque começou a chover no domingo. Essa fragilidade é um bem porque podemos discutir com ela — ou comover-nos. Ah, mas claro que a comoção é um perigo, tal como a pieguice, a lamechice, o horror aos outros, sim, claro que é. Mas pior do que isso vão ser os blogs dos deputados quando o parlamento publicar o livro de estilo (será como o código de conduta do Expresso?).

É apenas um excerto. Se querem ler o texto todo vão até ao blog do FJV. Indispôs-me. Indispôs-me porque me pôs a pensar sobre o que andamos todos a fazer por cá. Não devíamos delegar a nossa liberdade de outorgar pensamento em quatro ou cinco representantes que dissessem e escrevessem tudo em nossa vez?
Ora bolas, ou então sou eu que hoje acordem para ficar indisposto...


 
DOGMAS DA INDISPOSIÇÃO MATINAL, ORA BOLAS II: O duche da manhã foi tomado com prazer. Ao fim de alguns minutos o germe mais feroz estaria submerso a caminho de uma estação de tratamento de esgotos. A pele madura ficaria hidratada, o cabelo sedoso e brilhante. Nada de mais. Uma rotina que nunca se esgota. Só questiono então porque não havia disponível um lençol de banho onde enxugar este corpo fragrante. É que secar o corpo à toalha do bidé não me parece outra coisa senão ridículo.


 
DOGMAS DA INDISPOSIÇÃO MATINAL, ORA BOLAS: Apesar de sermos afrontados logo ao acordar por todo o género de condicionalismos matinais, dizem-nos ainda assim que temos de ser optimistas. Mas que raio de optimismo pode achar-se quando, após toda a nossa diligência em defecar com honestidade e asseio, verificamos que do rolo de papel higiénico resta apenas o cartão?


 
Miguel “por assim dizer, gracinha” Viterbo (sim, ainda é Viterbo por parte da tia gracinha) também tem um blog. Quer dizer, diz que sim... Mona Lusa, para os mais curiosos.
ps. não tem nada a ver com a Agência Lusa.


 
Eles vivem. A armada invisível tem umas chalaças para fazer arrebitar os nossos dias e as nossas noites. Aos comandos da barcaça estão João Quadros e Aldo Lima (sim, este ainda é primo do Aldo Nova). Pela risota que conseguiram despregar à sisudez natural deste clerical vos agradeço, irmãos. Prossigam com as piadas castas.


sábado, julho 19, 2003
 
A minha cadela solicitou-me que deixasse aqui a sugestão de um blog. Diz que deu uma vista de olhos e que considerou aquele um dos blogues mais interessantes que alguma vez lhe passou pela ponta do nariz. A sério, rosnou ela. Aquele era provavelmente um dos 700 melhores blogues nacionais que jamais havia trincado, prosseguiu. E eu, como não sou de duvidar do que diz a minha cadela (quanto mais conheço as pessoas, mais acredito na minha cadela), resolvi dar uma vista de olhos. E não é que a porra do blogue é mesmo bom!!! Safa, que ainda agora me estou para aqui a esfregar de cobiça com o prurido que me provocaram aquelas palavras. O blog da E-maranhada deixou-me literalmente agnóstico.
Quem escreve assim não deve ser loura...


 
Venho anunciar através deste meio privilegiado que é o bleerrgghhhh, que sou um dos escassos exemplos da esfera bloguística que não lê o jornal calhastroz Expresso (as esmolas aqui deixadas pelos fiéis deste blog mal chegam para pagar as despesas de acesso à rede), e que por isso me vejo privado de comentar convosco, ilustres associados do universo bloguístico, assuntos que claramente dominam a actualidade, como são as bordoadas com que o meu colega de seminário Pinto da Costa arreava em sua ex-mulher, o novo modelo da Pininfarina a ser produzido em Portugal, ou as últimas do sempre surpreendente universo Meu Bibi.
Por esta falha a todo o transe indesculpável, pedimos então as vossas desculpas...


 
Onde está Miguel Viterbo? Pertenceu também ao clã das Produções Fictícias, e a essa empresa que iniciou a gesta do Mulher Não Entra. Tememos que tenha sido vítima de uma cabala procedente de um lobby gay ou de uma qualquer organização feminista. (Para que conste, eu adoro ler a Bomba Inteligente.)


 
Onde está João Quadros? Estará aqui? Foi guionista das Produções Fictícias, deu palavra a Herman José, Maria Rueff, entre outros. Ter batido com a cabeça em pequenino não explica tudo. Marcou o seu cantinho nos anais da História ao tomar parte dessa gesta que deu à luz o programa de maior referência do panorama audiovisual e socio-cultural português nos últimos anos: Mulher Não Entra. Foi visto pela última vez a preparar um guião para o mais recente e entretanto já extinto programa de Teresa Guilherme: Rosa Choque. Depois do choque, perdemos-lhe o rasto. Agradecemos a quem nos elucide sobre que aconteceu a este criativo da praça nacional.


 
O presidente da Guiné-Bissau, Kumba Ialá, solicitou aos responsáveis pela delegação da RTP África em Bissau que retomassem a actividade da delegação. Importa recordar que foi o mesmo Kumba Ialá que determinou a suspensão das emissões da RTP África em Bissau por, alegadamente, a estação fazer passar para o exterior uma imagem negativa do país. E se Jorge Sampaio mandasse suspender as emissões da TVI, julgo que a ideia até não era mal pensada...


 
O que é ser jovem em Portugal? Esta questão daria pano para mangas. E como já temos pouco pano, vamos ser sintéticos. Não existe um formulário que nos permita inscrever como jovem. Preencher uma ficha, entregar uma jóia de 5 euros e receber um cartão com a nossa cara espichada no verso. Como não existe nenhuma associação verdadeiramente representativa do que é ser jovem neste país (envelhecido numas ocasiões, ou rejuvenescido consoante a conveniência). Associações de jovens empresários ou de jovens agricultores estão deste rol excluídas, porque me parece consensual que só são constituídas por rapazes e raparigas que já não se sentem com idade para explorar os pais e decidem então explorar o Estado, que ao menos não lhes tira a chave do carro e é, por assim dizer, um pai ausente que não grita em direcção aos tímpanos e anda sempre com uns trocos no bolso.
Ser jovem em Portugal, meus amigos, deve aferir-se pelo padrão Sic Radical. Equacionei outros padrões igualmente credíveis, tais como o padrão O Homem Que Mordeu o Cão, ou o padrão O Meu Pipi, mas apesar de serem ponto de convergência das ideias que formatam o “ser jovem em Portugal” pecavam por lacunas ao nível da representatividade; não faziam número suficiente.
A Sic Radical parece-me, neste campo, o melhor exemplo. E aqui começam as preocupações. Os programas produzidos por esta estação, aparentemente destinados a uma audiência constituída pela camada de público que se designa por “malta jovem bué da fixe”, parecem programas para atrasados mentais. Refiro-me concretamente ao Curto Circuito e ao Cabaret da Coxa, já que não se pode imputar esta crítica ao Perfeito Anormal, dada a análise temática ao título do programa indiciar já o assumir da postura que nele se lobriga. Louva-se a honestidade dos autores.
Quanto ao Curto Circuito, apraz-me registar que para um jovem se perfilar como candidato a vedeta televisística por via da apresentação do dito programa, deve ter ciente a estar bem alerta para várias regras básicas a cumprir: a OBRIGATORIEDADE de proferir de modo compulsivo uma piada de três em três minutos (e ai daquele que ouse proferir uma piada ou uma graçola capazes de provocar mesmo o riso ao espectador atento), ser capaz de patentear a pinta de gingão, tarado e garanhão (todas as três ao mesmo tempo), não negligenciando atirar-se descaradamente às convidadas que surjam no programa com os ombros ao léu, o mesmo se esperando desse apresentador relativamente às espectadoras que falam ao telefone, tenham estas já 16 anos devidamente concluídos. Quanto às apresentadoras, devem aparentar ser ingénuas, o que não se tem afigurado difícil para as compartes que vêm colorindo aquela bancada, embora devam dar ares de quem já teve relações sexuais com pelo menos três companheiros diferentes ao longo da vida. Ingénuas mas nem tanto. Obrigatoriedade de frequentar os locais da moda.
O Cabaret da Coxa prima pela qualidade dos textos do editorial de abertura do apresentador Rui Unhas. São as chamadas piadas mortais (habitualmente mortais para o apresentador, embora no caso em contenda a figura do apresentador corresponda à figura do produtor, e assim este efeito fique invalidado e a abnegação do espectador perante esta dolorosa experiência seja repetida diariamente). Este conjunto de piadas mortais que iniciam o programa são piadas destinadas a jovens e por isso quem não se considerar nessa categoria ressoará nos fornos da ignorância relativamente ao que tenha sido dito. Estas piadas, mesmo para quem não for jovem, em última análise acabam por ter sempre piada, nem que seja pelo ridículo da ausência da ditacuja.
Em súmula, ser jovem é curtir bué, rir com conceitos como cócó, xixi, pipi, ou sem qualquer conceito, e é nesta época ir a pelo menos um festival de verão. Ser jovem é isto...


 
Estou cá afogueado com uma novidade que me chegou aos ouvidos recentemente. José Cid tem novo álbum. Um álbum de "êxitos". Quando ouvi não quis acreditar, mas dada a credibilidade da fonte, lá me resignei e acendi duas velinhas no altar onde está aboletada a imagem de São Serôdio. Não é provável que passe na rádio qualquer das músicas deste autêntico dinossauro fossilizado, mas não vá o Diabo tecê-las e já mandei retirar as pilhas à telefonia. Deixo uma pergunta para o José Cid: “Caro José Cid, Prémio Anadia Biónica 2002, tu que já conseguiste ser eleito o homem mais mal vestido de Portugal ao ponto de decidires tirar a roupa para conseguires provar que consegues ao mesmo tempo ser o homem mais mal despido de Portugal, José Cid, eu pergunto-te: por amor de Deus, que mal é que a gente te fez!?!?!?”


 
Um livro para refrescar. Um livro que li faz precisamente agora um ano e que aconselho vivamente. Se Numa Noite de Inverno Um Viajante do engenhoso Italo Calvino. Uma obra que nos conduz num jogo de matrioskas aos meandros da narratividade, que nos atrai aos bastidores da(s) obra(s), convidando-nos a sentar no lado de trás da tela e transportando-nos como personagem a paisagens distantes, frutos da imaginação do autor (ou levando o leitor a pensar que nascem do devaneio de Italo Calvino – na verdade, muitas das referências espaciais, temporais, culturais, têm base não-ficcional.) O livro surpreende-nos a cada momento e faz-nos querer avançar rapidamente para descobrir o que se esconde por detrás da porta do capítulo seguinte.


 
Tenho encravada na garganta uma piada de humor negro que, por pudor, não vou poder deitar cá para fora. Sinto-me chocado, porque no fundo sou uma pessoa sensível e boa (não um super-homem, não um super-garoto), e estas coisas das piadas mortais exigem também o cumprimento de alguns limites éticos que me estão a impedir que nos próximos meses tenha vontade de contar a tal graçola que está encravada no meu gargalo. Nem que pedissem mil vezes... (vá, aceito negociar a partir das duas mil e quinhentas.) Quis partilhar esta angústia apesar de ninguém ter nada com isto. Não é a angústia por me censurar a ir contra as regras de bom senso e respeito instituídas, mas por me ver assaltado de ideias contra as quais o meu outro lado vai lutando com afinco. EPÍTOME DA DUPLA PERSONALIDADE.


 
Confesso a minha incapacidade para dedicar outro período do dia à escrita destes modestos apostos que não os esconsos algares da madrugada. O peso das 5:14 não se revela na escrita, e nem mesmo a necessidade de tomar a grageia logo pelas nove da manhã me faz afastar dos pensamentos sobre a realidade em que me enleio. Confio que a persistência outorgue a este denodado espírito resultados práticos. BREVIÁRIO DA SUSPENSÃO DA INCREDULIDADE: ainda um dia hei-de conseguir ter pelo menos um(a) leitor(a).


sexta-feira, julho 18, 2003
 
Um amigo meu jornalista disse-me hoje que a grande cacha da sua vida seria esta:
Deus não existe. O Vaticano já desmentiu, mas em fax recebido na nossa redacção, S.Pedro, ele próprio, afirmou que uma equipa de revoltosos da Junta Militar do Éden entrou no gabinete de Deus tombando num enorme precipício. Um dos revoltosos afirmou na altura: “pois, nós aqui do sindicato já tínhamos uma desconfiança que Deus ia fugir às suas responsabilidades.” O Vaticano afirmou que Deus não tinha fugido para o Brasil, mas apenas se tinha retirado para ir à casa de banho e que voltou ao seu local de trabalho poucos minutos depois, não ultrapassando assim os dez minutos de intervalo que ele próprio instituíra como pausa para os trabalhadores do seu departamento. O mesmo revoltoso, homem que aparentava idade avançada e que, apesar das profusas barbas brancas espraiando-se pelo seu tórax, nos garantiu que não era o Dr. Pinto da Costa, prosseguiu: “Se Deus existe, eu sou o Pai Natal.” Outro, menos crente, concluiu ainda: “No fundo, Deus é um bocado como o ponto G. Toda a gente fala nele, toda a gente diz onde ele está, mas nunca ninguém o encontrou”


 
Alvitre para concurso televisivo ainda mais estúpido do que o mais estúpido até hoje engendrado: doze concorrentes agarrados a um cabo de alta voltagem, o último a largá-lo sagra-se o grande vencedor da contenda. Para além de uma boa estrutura física, exige-se sobretudo preparação psicológica. Como prémio, o oferta de 200Kva semanais para fornecimento próprio, para além de um fantástico pack de acções da empresa EDP.


 
O Sporting Clube de Portugal SAD apresentou ontem os equipamentos da sua equipa de futebol para a época 2003-2004. As listas verdes e brancas são agora mais estreitas avançando assim ao encontro das novas tendências do kitsch que dominam meia sociedade portuguesa (a outra metade está absorta, ocupada a ver A Hora da Gi.) Depois da tendência adoptada na pretérita temporada pelo Futebol Clube do Porto, de equipar os seus jogadores de pijama azul e branco, e com os resultados visíveis, é agora a vez dos apaniguados do leão, talvez procurando atear um entorpecimento nas hostes adversárias e assim violar sem apelo nem agravo as redes de todos quantos se ponham no caminho do leão. Depois do embuste que foi para os adeptos sportinguistas a troca de um estádio de futebol por uma casa de banho monumental, segue-se agora troca de uma camisola de futebol por uma fardamento penitenciário ao qual falta apenas uma bola de chumbo agarrada ao tornozelo (se bem que Rochenback, Pedro Barbosa, JVP, Beto, Quiroga e companhia já a têm por natureza) a fazer lembrar os famosos irmãos Dalton. Se esta moda não despega, na próxima época temos o Sport Lisboa e Benfica equipando de camiseta encarnada decorada por uns patéticos ursinhos, e jogadores a fazerem birra no chão quando apanham ao de leve uma bem amandada traulitada de um adversário benévolo. A grande questão é, meus amigos, se, do ponto de vista do marketing desportivo, estas opções são de facto uma boa escolha...


 
Corolário de questão perturbadora: porque não nos fazem o favor de colar a palma da mão do apresentador Pedro Miguel Ramos ao casco de um dos novos submarinos que, a breve trecho, irão equipar a frota da Armada Portuguesa? Que custos acrescidos terá isto para o nosso país, doutor Paulo Portas?


 
Questão perturbadora: até que ponto faz sentido o pecado nos dias que correm?


 
Comecei hoje a ler O Crime do Padre Amaro. Constava-me que se falava sobre mim, e fui ver. Nada como saber o que dizem de nós, para saber o que dizer dos outros. Esta é uma das premissas do tal “ser português”. O livro é bonito, tem muitas páginas, capa dura, texto que dá para seis meses. Reza assim, para começar:
“Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano como o «comilão dos comilões». Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da botica – que o detestava – costumava dizer, sempre que o via sair depois da testa, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
- Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura.“

Para já, e não desejando arriscar um estouro do já morto Padre José Miguéis, não passei ainda daqui...


 
Estou a observar um ministro do Governo do nosso país, em entrevista a um conhecido canal de televisão português, não público, que transmite 24 sobre 24 horas de informação, que não pertence ao grupo de media detentor da estação rádio onde os animadores animam com um sotaque igual ao da cançonetista esotérica Simara (há quem a chame isotónica – não nos pronunciamos.)
Este ministro tornou-se célebre por se afirmar um conservador-liberal (encontro algum equívoco linguístico no sentido desta expressão), católico (crente em Deus, portanto, o “nosso” deus), e, talvez mesmo por perfilhar essa crença, ainda fiel ao seu benfiquismo, que é sentimento sabido em vias de desaparecimento.
Bagão Félix, conhecido como o caveira (assumo que qualquer explicação será despicienda para o caro leitor), fala em defesa do seu Código do Trabalho.
A grande ironia não é a presença de um destacado membro do actual Governo num programa de televisão com cenários de Tomás Taveira. A grande ironia é o facto de no lado oposto da mesa estar o Secretário-Geral da UGT, João Proença, cara redonda, espírito anafado e bem nutrido. Este, provavelmente, estará a notificar os portugueses sobre as suas críticas ao mesmo Código. Como é possível dois homens que se completam terem ideias tão diferentes sobre a mesma peça de papel? Como é possível, pergunto eu em Latim!?
Pondo de lado toda a hipocrisia que sobrevém destes debates, eu pergunto, desta vez em bom português: como é que o povo português não há-de andar deprimido, quando o sindicalista é o rechonchudo e bem nutrido, e o ministro que governa é o que aparenta fraqueza?...
Que moralidade existe em expor os portugueses a esta provação? Já não chega a este povo mártir consentir o Malato, a Gi, e ex-empregado de mesa da Praça da Alegria agora convertido em repórter?


quinta-feira, julho 17, 2003
 
De Portugal se tem dito que é um país de brandos costumes. E de tais dizeres temos nós, portugueses, concluído que se trata de uma expressão de enfeite aplicada, neste contexto, a um país onde impera a ditadura do confetti, da serpentina e da mijinha a três.
Portugal é, foi, e confiamos em Deus para que continue a ser, uma nação de Padres. Por Padre reporto-me a um dos sentidos conotativos mais controversos que a expressão “padre” nos evoca.
Caros amigos, esta ideia de que Portugal é um país de brandos costumes afigura-se-me um logro. Mais irrefragável seria designá-lo, sim, de país de brandos costumeiros – e aqui permitam-me uma pausa no pensamento para que possamos trocar a coisa por miúdos, não estejam aqueles leitores de raciocínio mais compassado perdidos já numa das artérias vagas e escleróticas da incapacidade de atingir o orgasmo interpretativo mencionado por Umberto Eco num dos seus estudos semióticos.
O país é monótono, e ainda por estes dias afogado nessa quinta-essência do “ser português”: a cabra da virtude. Durante nove séculos vivemos para lá dessa peneira que é a pudicícia. A chamada reforma da virtude apenas recentemente se verificou. Só com a hodierna extensão do tentáculo cego da Justiça, a virtude começou a ser desmascarada, despida, peça por peça, até se atestar o seu corpo caduco e descaído, digno de uma velha decrépita e feia. A virtude apregoada, choradinha, vendida em directo nas tv’s, já não serve de guarda aos pecadores sem remédio.
Deixemo-nos de préstitos balofos e arremessemos à massa estas nossas mãos pecaminosas: Vale e Azevedo, Braga Gonçalves, Carlos Cruz, Paulo Pedroso, Fátima Felgueiras, todos vítimas de infames cabalas, todos eles tão inocentes como um Padre Amaro, todos eles acotovelando-se nas salas de audiências dos nossos tribunais arriscando provar a sua inculpabilidade. Quase todos, Fátima Felgueiras arroga-se de ser a primeira exilada política do pós-25 de Abril (não terá sido o Padre Frederico o primeiro?) A todos estes a sociedade reconheceu a virtude, tanto pelo cargo que desempenhavam, como pela posição social a partir da qual acossavam os portugueses, todos eles proclamavam num medium e noutro a sua probidade. E tudo isso era afinal uma falácia.
Caros concidadãos deste país à beira do precipício, não se deixem asfixiar pela fraude: não há neste país Padre que não seja Amaro. Mais facilmente se pesca na foz do Lis uma enguia viva, do que em Portugal se encontra um "Padre" que não seja "Amaro".
A consciência pudica que nos alimenta o espírito leva-nos a renegar ir por aí, e a escolher outro caminho. O caminho da serenidade interior e que é também o da evasão. Este país é um país onde Padres Amaros abundam. E onde há Padres Amaros há também o crime. E o crime é a evasão...
Como dizia um Cónego que recordo aqui com saudade: “Ó Amaro, pimenta no cu dos outros, para mim é refresco!”